Publicado por: Revista YMSK | 1 Agosto 06

Belle And Sebastian

 

        Infância. Para quantos de nós não será eternamente a melhor fase da vida? Sem neuras, sem problemas, sem paranóias, sem pressa.

Aquela fase na qual nossa única preocupação era se iria fazer sol no outro dia para podermos sair de casa e brincar de pique. Desafios só se for para completar o Super Mario no SNES ou a coleção de figurinhas do filme da Disney da vez. Bons tempos, não?

O Belle And Sebastian (nome tirado de uma série infantil francesa) sempre me remeteu a infância (creio que não sou o único). Ouvi-los pela primeira vez foi como um flashback sem imagens. Até a trajetória da banda lembra o crescimento de uma criança. Nada mais certo, uma vez que a banda pode ser enquadrada no que se chamou de “twee pop” (em bom português “pop fofo” ou “pop delicado”), uma mistura de influências sessentistas (Beach Boys, Dylan, Donovan, Nick Drake), o pós-punk dos Smiths, do Felt e dos Go-Betweens, tudo temperado por uma farta dose de humor cdf e desolação loser. Ou seja, perfeito para manhãs frias, tardes chuvosas e noites solitárias.

Saídos da gelada Glasgow, a turma de universitários nerds pretendia ser “uma banda para poucos”. Começaram 96, quando Stuart Murdoch (que já compunha canções e poesias desde o começo dos anos 90) e Stuart David (músico, com experiência em outras bandas do underground escocês) decidiram tocar sem compromisso, apenas como uma pesquisa a mais para o projeto de monografia do primeiro.

Já no início de 96, gravaram algumas demos e logo foram escolhidos para um projeto da oficina de música Stow College Music Business Course, que selecionava anualmente uma banda para gravação de um single. Porém, a dupla já tinha canções suficientes para um álbum completo. Foi o que aconteceu. E logo completaram a formação Isobel Campbell, Chris Geddes, Richard Colburn e Stevie Jackson.

“Tigermilk” acabou saindo de maneira bem incomum. Lançado em abril daquele ano pela Electric Honey Records, foram prensadas apenas mil cópias e ainda em vinil. Bastante estranho para uma indústria musical que via grandes bandas como o Oasis vender milhões de CDs ao redor do mundo. Mais estranho era o fato da banda nunca ser fotografada, fazer pouquíssimos shows e entrevistas. Freaks…

O debut trazia condensado tudo que faria a fama do grupo nos anos seguintes: bela melodias (aqui ainda com produção quase lo-fi), melancolia, história sobre jovens deslocados (“She’s losing it”, “Mary Jo”), referências cult (como aos Smiths nas capas). E aquela inocência infante que tanto nos faz falta. Por acaso, uma das melhores faixas traz o emblemático nome de “You’re just a baby”.

Em agosto assinam com o selo escocês Jeepsetter, em seguida lançam o segundo disco, o aclamado “If You’re Feeling Sinister”. É nesse trabalho que o então septeto (a violinista Sarah Martin havia entrado logo após o lançamento do primeiro disco) consegue atingir a perfeição. “If You’re Feeling Sinister” é uma pequena obra-prima da melancolia moderna (com sabor retrô). A capa, foto monocromática em tons avermelhados de uma garota com cara de maníaco-suicida, e o título deixam bem claro que os sentimentos mostrados no álbum não são, digamos, felizes. Como um Morrissey de seu tempo, Murdoch canta sobre os deslocados, os incompreendidos. Canções como “Get me away from here, I’m dying”, “The boy done wrong again”, “The fox in the snow”, entre outras, servem até hoje como hinos dos indies-tristonhos. Caindo no lugar comum, “If You’re Feeling Sinister” é dolorosamente belo.

A aura de mistério faz com que uma espécie de culto underground começa a se formar em torno da banda. Alguns shows são marcados, entre eles uma mini-turnê abrindo para os Tindersticks.

Durante 97, o falatório sobre o Belle And Sebastian só cresceu. A partir desse ano, a banda começa a lançar alguns EPs (característica da carreira da banda) como “Dog On Wheels” (com as primeiras demos do grupo) e “Lazy Line Painter Jane”. Esse último chega às lojas na mesma semana em que ocorre consagrador show de Union Chapel, em Londres. Setembro é marcado pelas primeiras apresentações em solo americano, incluindo uma no festival do College Music Journal.

“3…6…9 Seconds Of Light”, terceiro EP daquele ano, é escolhido “single da semana” pela revista Melody Marker e pelo semanário New Musical Express, comprovando o crescente espaço na mídia que o grupo vinha recendo.

Em 98, o grupo chega ao aguardado terceiro disco, “The Boy With The Arab Strap”, outro com foto monocromática na capa (dessa vez verde), mostrando uma cena ainda mais desoladora: um jovem sendo atravessado no peito por uma lança. O álbum consegue bater a 12ª posição da parada na primeira semana, mas acaba desaparecendo dos charts nas seguintes.

A qualidade do anterior é mantida, contudo, os disco mostra a banda com algumas mudanças. Isobel e Stevie experimentam cantar em algumas faixas e o baixista Stuart David apresenta sua primeira música, “A space boy dream”, diferindo bastante da sonoridade do trabalho passado dos escoceses. A criança começava a dar sinais que já não era tão infantil, tão sem aspirações, tão inocente.

Outro EP é lançado, dessa vez com um título bastante sugestivo, “This Is Just A Modern Rock Song”. Afinal o que seria o Belle And Sebastian se não só mais uma banda de rock moderna?

É nessa fase que o Belle And Sebastian definitivamente atinge o status de “banda cult”, adorada pela crítica e pelos moderninhos de plantão. A curiosidade dos fãs é enfim saciada com fotos, show e entrevistas.

No ano seguinte, alguns integrantes começam a se dedicar a projetos solos. Stuart David lança o primeiro disco (“Up A Tree”, pela famosa Sub Pop) sob a alcunha de Looper. Por sua vez, Isobel Campbell grava como The Gentle Waves o bem recebido “The Green Fields Of Foreverland…”. Com isso, a banda pouco produz em 99, apenas relançando em CD o primeiro disco. Mesmo assim, acabam recebendo o British Awards de revelação naquele ano e organizando seu próprio festival (após recusar ofertas dos grandes festivais de verão), o The Bowie Weekender, contando com a partipação de “gente grande” do quilate de Flaming Lips, Mercury Rev e Teenage Fanclub.

“Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant”, quarto disco da banda, chega na ressaca da despedida de Stuart David do grupo. Alegando falta e tempo, o baixista concentra desde de então seu foco no ensolarado Looper e em seu trabalho com escritor.

O álbum mostra um Belle And Sebastian mais “democrático”, com Murdoch cedendo um maior espaço para o resto do grupo nas composições. Inconsistente, o disco não é tão bem recebido pela crítica, mas acaba conseguindo chegar ao Top 10 britânico. Já o clássico single “Legal man” bate o top 15, levando à primeira aparição no programa de TV Top Of The Pops. Voltando àquela comparação entre a carreira do B&S e a vida de uma criança, pode-se dizer que “Fold You Hands Child, You Walk Like A Peasant” é o trabalho “aborrecente” da banda.

Em 2001, com a saída do baixista original, Bobby Kildea é adicionado a formação do grupo, aparecendo na capa do EP “Jonathan David”. É nesse período que a banda faz sua primeira (até agora, única) apresentação em palcos brasileiros. Os bons shows do Free Jazz garantem o lançamento do catálogo completo pela Trama, além de várias matérias em veículos importantes do país. O próximo EP, “I’m Waking Up To Us”, traria na capa a violinista Sarah Martin e seu beagle. “Fofo” é pouco.

A banda passa 2002 divida entre as gravações da trilha de “Storytelling” (filme do controverso diretor Todd Solondz) e a turnê mundial. Apesar do bom momento, o ano marca a saída da violoncelista Isobel Campbell por alegadas “diferenças criativas”. Seu segundo disco como The Gentle Waves é lançado no mesmo ano, seguido de “Amorino” em 2003 usando dessa vez o próprio nome.

Uma grande mudança chega em 2003: após os 7 anos de sua existência lançando pelo selo escocês Jeepsetter (nos EUA pela Matador), a banda é contratada pela histórica gravadora Rough Trade, pela qual sai o quinto disco, “Dear Catastrophe Waitress”. É nele que o Belle And Sebastian inicia uma grande mudança em sua sonoridade.

Deixando para trás as fórmulas pré-concebidas do twee pop, o grupo começa a alçar vôos mais arriscados, flertando com soul, funk, e psicodelia setentista. Enfim, o frescor da adolescência.

É em 2003 que o público vê o Belle And Sebastian se “adaptando ao sistema” (sem má conotação, por favor!) ao lançar o primeiro single de uma música previamente contida no álbum. A escolhida, “Step into my office, baby”, ainda ganhou um clipe bastante engraçado, aquele humor nerd do qual falava no começo…

Com a saída da Jeepsetter, o selo adquire o direito de lançar o primeiro DVD da banda, “Fans Only”, com clipes, cenas de bastidores, entrevistas, e material inédito contando a história deles até então.

A turnê mundial toma conta de todo o ano de 2004. Também há o lançamento do single “I’m a cuckoo” (essa uma das melhores e mais ensolaradas músicas do grupo), além de um EP chamado “Books” (contendo a já lançada “Wrapped in books” e composições inéditas).

2005 foi um ano relativamente calmo para os escoceses, tendo apenas lançado a coletânea dupla “Push Barman To Open Old Wounds”, com a plenitude dos singles e EPs lançados pela Jeepsetter. No meio deste ano, participam do projeto “Don’t Look Back”, no qual tocam inteiro o clássico “If You’re Feeling Sinister”, que acaba virando um disco promocional para download.

Ao mesmo tempo iniciam com Tony Hoffer (conhecido pelos trabalhos com Beck, Supergrass e Air) a produção do sexto álbum de estúdio (descontando “Storytelling”). O aguardado “The Life Pursuit” chega em fevereiro de 2006, provando que a mudança indicada com o disco anterior vinha para ficar. E nenhum título poderia ser mais apropriado, a busca pela vida. Nele o que, às vezes, parecia sem foco em “Dear Catatrophe Waitress” é maximizado, potencializado. É um Belle And Sebastian dançante, colorido, psicodélico, funky. Um Belle And Sebastian livre. Um Belle And Sebastian maduro.

Amadurecimento. Tarefa cruel e difícil tanto na vida quanto na história de uma banda. Felizmente, a nossa criança que há 10 anos ainda lançava disco de vinil (e hoje vê o disco vazar na rede três meses antes do lançamento) cresceu. Amadureceu sem perder a essência. Sendo mais claro e falando em termos de cultura pop, virou “banda grande” conservando aquela bem vinda “aura freak” do começo de carreira.

por Livio Vilela


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