Publicado por: Revista YMSK | 1 Dezembro 06

Bob Dylan – ”A busca por um Deus”

 

       Tom Cruise pode ter lançado Missão Impossível III em maio, mas, neste fim de ano, quem tem algo realmente arriscado para fazer, sou eu. Meu desafio não veio em uma mensagem autodestrutiva, no entanto escolher qual a grande banda ou artista de 2006, antes mesmo do ano ter acabado, não é fácil, principalmente porque muita gente palpita, mas poucos concordam.

Pensando em ser o mais imparcial possível, perguntei a opinião de vários amantes da música, e não foi surpreendente descobrir que não haveria o sonhado consenso popular. Neste período em que é tão fácil conhecer as novidades, eleger um artista que mais se destacou entre inúmeros é complicado e até injusto. Mas dever é dever. Com minha lista em mãos começo a busca pelos motivos que fizeram com que aqueles nomes estivessem naquele pedaço de papel. Então a parte mais difícil, a eliminação.

Ser a promessa do ano, não faz com que uma banda ganhe o título de melhor (riscamos The Gossip). Juntar uma legião de fãs fiéis com um disco também não é o bastante (até mais, Guillemots). Fazer algo diferente da maioria dos outros grupos que atingiram o estrelato ainda não é o suficiente (então esquecemos das Pipettes). Eliminamos a banda que promete fazer mais barulho em 2007 do que em 2006 (The Killers está fora). Tiramos também aquela que já chamaram de clássica, mas que ainda tem algo a provar (tchau Raconteurs). E no fim sobra apenas um nome, aquele que desde o início não prometia muito, porque há tempos provou o que precisava. Por isso Bob Dylan te surpreende, voltando à música, mais clássico do que nunca.

A chegada ao Olimpo

Claro que é preciso haver motivos para ter alçado Bob Dylan ao posto de nome do ano. Eu poderia começar revisitando toda discografia (bem extensa) deste compulsivo trabalhador da música, mas qual a finalidade? Estamos falando do presente, e Modern Times convence por si só! E não pense que sou mais uma bajuladora dos clássicos, muito pelo contrário. Bob Dylan nunca foi um dos meus favoritos, comecei a prestar atenção nele mais por causa do Travelling Wilburys, do que pela carreira solo, porém uma coisa é inegável, ele é daqueles músicos que você não precisa idolatrar para saber que é bom.

Em Modern Times, lançado em agosto, não há a reinvenção de um cantor porque, por si só, Robert Allen Zimmerman é o bastante para a história da música, exatamente como escreveu Eduardo Bueno no prefácio de Crônicas: “Dylan, sabe-se lá como, abrira caminho para uma torrente de arrogância e sabedoria, simbolismo, ambição e graça que explodiu em um turbilhão de inovação, sofrimento e dissonância. Ao fazê-lo, completou sua maior obra: a invenção de Bob Dylan”.

O nome do disco pode ser visto com ironia pelos “fascinados por novidades” como Artic Monkeys e TV on the Radio. Algo que soa tão sessentista pode se chamar Modern Times? Na verdade, já atingimos o pós-modernismo, mas para os desmemoriados um lembrete: quantas destas bandas novas viajam para o passado em busca da sonoridade de hoje? Ao contrário de outros, como Caetano Veloso, que precisou seguir as novidades para avançar musicalmente, Dylan mantém clássicos na discoteca, mas não ignora jovens nomes, como Alicia Keys, mencionada na letra de “Thunder on the Mountain”.

Os 45 anos de carreira poderiam render a aposentadoria para o senhor que se mudou para Nova York com 19 anos, seguindo os passos do ídolo Woody Gutherie. Ou então, agora aos 65, Dylan poderia arriscar uma carreira de crooner como tem feito Rod Stewart, contudo fazer versões da músicas famosas é pouco para ele. Ainda há imaginação nas letras do grande trovador americano, e sutileza para copiar grandes nomes da música. Dylan é folk, é blues e não um plagiador. Pegar melodias ou partes de letras de outros artistas, como acontece em “Rollin’ and Tumbling”, é uma tradição que os membros da arte folk americana seguem para homenagear os grandes mestres como Muddy Waters e Robert Johnson.

Bob Dylan é um músico acima da própria fama. Suas fontes de inspiração não são mais importantes que suas letras, os boatos que cercaram sua vida, nunca foram maiores que suas canções, e é isso que faz com que este homem continue sendo digno de atenção. Modern Times fala sobre amor (como Spirit on the Water e Beyond the Horizon), analisa a situação atual do mundo (Ain’t Talkin’, The Levee’s Gonna Break e Workingman’s Blues #2), mas acima de qualquer coisa, trata sobre o ser humano. A banda de acompanhamento não é mais a The Band, mas molda a harmonia de cada composição com uma forma perfeita, que apenas o produtor Jack Frost (o próprio Dylan) poderia criar. Cada faixa deste álbum é uma amostra do experiente ponto de vista do artista que fez de tudo: longas turnês, filmes, livros, propaganda para a Victoria’s Secret…

Qualquer um que acuse o mágico das palavras de não ser tão bom quanto era, precisa abrir os olhos, os ouvidos e o coração. Mesmo assim, os céticos precisam entender que música vai além da razão, é necessário construir uma ponte até a alma das pessoas. Por esse motivo, em 2006, entre tantos ‘’semi-deuses’’, Bob Dylan contínua o rei da racionalidade, e chega ao Olimpo também como o Deus da emoção.

por Lidiana de Moraes


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