Publicado por: Revista YMSK | 1 Março 07

Beck – “Everybody Loves Beck”

 

       A tecnologia leva a música a novos rumos neste começo de século. As relações entre artista-público-gravadora-mídia, muitas vezes obscurecidas por interesses alheios, mudarão em definitivo. A forma com que se consome, se faz e se relaciona com a música também não será mais a mesma. Internet, MP3, audiovisual e portabilidade são as palavras chave dessa revolução. E no meio disso tudo, um artista se destaca por um faro característico para novidades.

O norte americano Beck calcou sua obra na mistura de referências antagônicas (de hip hop à jazz, folk, world music, blues e música religiosa) de uma forma como jamais havia sido pensado. Agora, está mais uma vez um passo à frente: anunciou o fim do formato convencional de álbum, estático, em total sintonia com as novas tendências. Em seu lugar, Beck prenuncia que será a vez do público escolher as músicas que quer compondo o CD, suas versões e ordem dispostas. Interativo pois, e já que hoje se ouve mais música no computador do que nunca antes, vídeos e animações no monitor entrarão no lugar da capa e encarte, extintas junto com o CD
antiquado. “É hora do CD abraçar a tecnologia”, disse Beck. Esse relacionamento íntimo com as novas possibilidades do universo musical é sua característica mais marcante.

Portanto, enquanto ainda estivermos nessa fase de experimentação e incertezas devemos prestar atenção nos passos de Beck: ele tá por dentro das coisas. Toda essa verve vanguardista tem raiz na família. Bibbe Hansen, uma atriz freqüentadora do movimentado empreendimento pop-cultural Factory, de Andy Warhol, deu à luz a Beck David Campbell em 7 de julho de 1970. O pai, de quem herdou segundo nome e sobrenome, era maestro e arranjador. Deixou a família cedo, o que fez com que o menino mudasse seu sobrenome para Hansen, de sua mãe, como é registrado hoje.

Adolescente, Beck deixou sua Los Angeles natal (onde havia testemunhado o nascimento do hip hop), e passou temporadas em Kansas (com seu avô paterno, um ministro prebisteriano), e na Europa, com Al Hansen, seu avô paterno, integrante de um movimento artístico chamado Fluxus. Aos 19 anos, foi para Nova York, onde acompanhou de perto o movimento anti-folk, que combinava a sonoridade folk com a atitude e a estética punk. Um ano depois, de volta a Los Angeles, iniciou sua carreira tocando em festas e bares, influenciado por blues, folk, punk, música prebisteriana, hip hop, todo o mosaico musical ao qual havia sido exposto até então.

Sua primeira gravação foi “MTV made me want to smoke crack”, lançada por um selo independente. Meses depois veio “Loser”, o hit de sua carreira. Foi sucesso no circuito das colleges radios americanas e lhe valeu um contrato com a major Geffen Records. Em 94, saiu “Mellow Gold” que impulsionado por “Loser” projetou seu autor para além do circuito alternativo. O hit foi taxado como hino da slacker generation, como era definido a juventude dos anos 90, sua apatia e entediamento. Sobre isso, Beck detonou: “nunca fui slacker. Eu estive trabalhando em empregos de 4 dólares por hora, tentando permanecer vivo. Essa coisa de slacker é para pessoas que tem tempo de ficar deprimidos com qualquer coisa.”

Hino ou não, “Loser”é a “Satisfaction” de Beck. Sintentiza muito bem o hibridismo de sua obra: bateria ritmada como um funk, dedilhados de violão folk, base de guitarreira + baixo, típico de rock alternativo e vocal meio falado, algo entre o blues e o hip hop. O disco inteiro segue assim: um ecletismo incrivelmente bem orquestrado debaixo de uma sonoridade suja e underground. O contrato firmado com a Geffen dava a Beck uma prerrogativa inédita: ele poderia lançar trabalhos paralelos por gravadoras independentes. Assim, ele deu vazão ao seu trabalho experimentalista: “Stereopathetic Soulmanure”, “One foot in the grave”, “A western haervest field by moonlight”, entre outros foram lançados em meio a discografia oficial.

Em 96, seu segundo disco pela Geffen foi lançado. “Odelay” agregou a bossa nova ao mix de sons que Beck promovia. O resultado foi hits como “Devil’s Haircut” e “Where I’ts At”, e consagrou Beck no Grammy do ano seguinte, como melhor performance masculina e alternativa do ano. Dois anos mais tarde, saiu “Mutations” (produzido por Nigel Grodrich, o mesmo de OK Computer). Aqui o som está mais calcado no folk (com destaque para a produção detalhada de Godrich). Foi inicialmente lançado independentemente, até que a Geffen decidiu lançá-lo, tamanha
a qualidade das canções. Uma delas se chama “Tropicalia”, e o título do álbum seria uma referência aos Mutantes.

Já em 99, Beck relançou “Golden Feelings”, com a primeiras gravações de sua carreira, anteriores a “Mellow Gold”. Meses mais tarde, “Midnite Vultures” chegou às lojas. Desta vez, o destaque é a influência da soul music, que faz o álbum soar como Prince às vezes. A extensa turnê de “Midnite Vultures” rodou o mundo e passou pelo Brasil, para o Rock in Rio 3, no início de 2000. Neste mesma época, ele arrecadava mais um Grammy de melhor performance alternativa, ainda por “Mutations”.

“Sea Change” foi lançado em 2002, também produzido por Nigel Godrich. Mais uma guinada nas referências que compõem a sonoridade do disco: arranjos misturando violões e cordas, em melodias delicadas e um tanto melancólicas, influenciadas pelo folk britânico de Nick Drake. Durante a turnê de “Sea Change”, o Flaming Lips acompanhou Beck como banda de apoio.

O penúltimo disco de Beck se chama “Guero”. Foi lançado em 2005, (em meio a “Sea Change” e “Guero”, Beck casou-se e teve um filho com a atriz Marissa Ribisi, o que explicaria o longo hiato entre os dois), depois de ter vazado pela internet. É um disco eclético e animado, ao estilo de “Odelay” (ambos os álbuns contam com a mesma dupla de produtores, Dust Brothers). Jack White gravou o baixo de “Go it alone”, e samplers de Vinícius de Moraes ( em “Missing”) e Beastie Boys ( em “E-Pro) foram utilizados. Com esse trabalho, Beck inaugurou seu novo conceito de álbum, dinâmico e interativo: lançou uma versão em DVD, com vídeos art acompanhando cada faixa, outra remixada por, entre outros, Diplo, chamada Guerolito, além de incentivar abertamente seus fãs a fazerem mashups (misturas de intrumentos de faixas diferentes).

Finalmente, em outubro de 2006 “The Information” é lançado, resultado de três anos de gravações. Tem sido descrito com “esquizofrênico”, com suas viagens entre grunge e hip hop, pop e psicodelia. A capa de “The Information” é toda branca, e traz adesivos estilosos para o dono criar sua própria versão. Cada música possui um vídeo no You Tube, produzidos toscamente por Beck e seus amigos. O cientólogo Beck traduz inconstância e inquietude, além de cada um dos adjetivos usados para designar sua obra ao longo desse texto, a cada disco que faz. De perdedor a visionário, fez um caminho coerente (mesmo com as orgias musicais que promoveu em sua discografia), e ainda promete ser O cara da nova música que toma forma.

por Janaína Azevedo


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