
Imagine a cena: o sol brilhando em um céu azul sem nuvens. A areia, quente o suficiente para escaldar os pés descalços do turista desavisado. O mar, azul escuro, espumando ondas na direção da praia deserta. Você e sua prancha tomam velocidade até se atirarem na direção das águas aonde o encontro entre o calor do verão e o frio marítimo criam uma onda de choque energizante, tudo o que você precisava para tomar fôlego e terminar o que veio fazer ali: surfar.
Não, esse apavorante cenário nunca me agradou, caso você estivesse pensando o contrário depois dessa simplista e pseudo-poética cena surfista. Apesar disso, o “Achados e Perdidos” desse mês vem provar que mesmo um peixe fora d´água é capaz de apreciar um dos mais criativos gêneros do rock, o “surf rock”. Aclamado por uns, menosprezado por outros, o gênero hoje em dia não mais figura nas paradas de sucesso internacional, mas vez em outra um Tarantino excêntrico o coloca para estrelar seus filmes, trazendo um pouco de frescor a esse praiano estilo musical.
Ainda assim, essa coluna não tem como objetivo descrever “estilos do rock”, aqui daremos destaque a uma das bandas criadoras do rock surfista (e não, não foram só os Beach Boys): “Jan & Dean”.
O duo roqueiro formado por William Jan Berry e Dean Ormsby Torrence antecedeu Brian Wilson e companhia, apesar de só ter ficado famosos quando abraçaram de vez o estilo que os Beach Boys consagraram em seus antológicos discos.
Nascidos na Califórnia nos anos 40, Jan e Dean começaram a cantar juntos ainda no colégio depois dos treinos do time de futebol do qual ambos participavam. Era na garagem de Jan que ambos gravavam suas primeiras canções, chegando a apresentá-las num daqueles típicos bailinhos americanos com o nome de The Barons. Tal apresentaçao sozinha já chamou a atenção de alguns selos da época, mas que infelizmente não resultou no sucesso imediato da dupla já que Dean fora convocado pelo exército americano na mesma época, forçando Jan a gravar uma de suas composições com o colega do The Barons, Arnie Ginsburg, o sucesso “Jennie Lee”. Começando a ser reconhecido, Jan retomou sua parceria com Dean logo que ele retornou do serviço militar oficialmente tornando-se “Jan & Dean”.
Depois de terem lançado juntos a balada “Baby Talk” os hits não pararam de emplacar até que em finais dos anos 50, a dupla se encontrou com ninguém menos do que os próprios Beach Boys, o que lhes serviu para aprimorarem seu estilo em apresentações em conjunto já que o tal do “surf rock” parecia atrair cada vez mais a juventude da época.
Foi Jan quem assumiu a direção levada pela banda, produzindo, escrevendo e fazendo os arranjos musicais que fundamentaram o “surf rock” naquilo que ele mais tarde se tornaria nas mãos dos “garotos da praia”.
Com a amizade com Brian Wilson solidificada, as duas bandas passaram a compor em conjunto chegando ao primeiro lugar das paradas americanas com seu mais marcante single “Surf City”, um reflexo do pensamento jovem californiano que se multiplicava mundo a fora. Chegando até aos cinemas, ambos estrelaram o filme “Ride the Wild Surf” trazendo ao celulóide a face do surf rock e cuja faixa tema, escrita por Jan, foi interpretada por Brian Wilson alavancando ainda mais a produção.
Em seu auge, Jan e Dean participaram também de um concerto filmado por Steve Binder ao lado de artistas como os Rolling Stones, Chuck Berry, Marvin Gaye, The Supremes e outros. Cantando sobre paqueras na escola, fugas para a praia no final de tarde, e picardias juvenis que não causavam abalo na sociedade conservadora da época, ambos foram aceitos sem questionamento pelos pais preocupados e consequentemente, confirmaram seu sucesso em vendas.
Em sua principal ousadia, já preconizando o final da era do surf rock, Jan e Dean começaram a compor faixas mais bem humoradas, discretamente a frente de seu tempo e que foram compiladas no trabalho quase punk satírico conhecido como “Jan & Dean Meet The Batman”. No auge do seriado, a faixa “Batman” servia tanto para crianças quanto para adultos ao incorporar o humor infantil e o deboche maduro que apenas compositores habilidosos poderiam compilar. De fato, se adequaria perfeitamente a uma das cenas do seriado que retrava o Batman “surfando” (sim, com direito a sunga amarela por cima do uniforme de Batman) contra o Coringa, nada menos que antológico.
No entanto, a era das picardias se transformava rapidamente e logo o post-surf deu lugar a novas sonoridades o que também coincidiu com o ocaso da dupla roqueira. Em 1966, a British Invasion já havia consolidado seu domínio global das paradas e Jan tragicamente sofreu um acidente de moto que o impediu de gravar por alguns anos. Dean continuou em novas associações, mas incapaz de reproduzir sozinho os sucesso de outrora.
Com alguns retornos não programados, a dupla finalmente se reencontrou quando em 1978, o filme “Deadman´s Curve”, título de um dos sucessos dos anos 60, surgiu para contar a história da dupla e reintroduzi-los no imaginário pop da época. Naquele mesmo ano, a parceria com os Beach Boys foi retomada e juntos fizeram uma bem sucedida turnê dentro dos EUA.
Altos e baixos, re-edições e compilações, Jan & Dean seguiram firmes pelas eras até o falecimento do primeiro em 2004, que lhe rendeu um tributo em memória logo após seu funeral. Dean Torrence, firme e forte, mantém hoje um portal que trás materiais exclusivos dos dois, incluindo dicas de vídeos, bastidores e listas de sucessos da era de ouro do surf rock, quando o rock era menos pretensioso, mas já anunciava que cedo ou tarde se tornaria o reflexo de cada nova geração.
Ouça a coletânea lançada em 1990, “Surf City: The Best of Jan & Dean”. Não é necessário dizer, mas direi: você não precisa ser um rato de praia ou nem mesmo nascido próximo a uma para apreciar!
por Denis Pacheco