Publicado por: Revista YMSK | 1 Julho 07

Radiohead – Ok Computer

 

“OK COMPUTER: o fim foi há 10 anos”

         Ao olharmos por toda a breve história da música pop, mais especificamente sobre aquele conceito abrangente que chamamos de Rock (imagine Belle And Sebastian e Metallica num mesmo rótulo!), veremos que são centenas – para nossa felicidade, CENTENAS – de discos que podem levar a etiqueta de “clássico”, mas são poucos os que cruzam uma barreira interessante, muito mais ligada às realidades que vão diagnosticar do que pura e simplesmente à música dos seus fonogramas. Tais obras adentram o campo das ciências humanas e radiografam nuances da sociedade e dos indivíduos. São obras em que assim como a música, o discurso também importa. Digo “discurso” ao invés de “letras” ou algo do tipo porque não são somente as palavras, é toda uma carga de significação produzida que vai muito além das estrofes e dos refrãos. Pode-se até falar em política, mas isso passa bem longe da pecha panfletária. 

O primeiro dessa linhagem é “Sgt. Pepper’s”, que em 2007 completou 40 anos de pura revolução estética e de uma visão de mundo que ia muito além do “all you need is love”. O sonho havia acabado ali e o mundo estava mudando, para pior. Isso explica porque canções como “A day in life” e “Good morning” ainda conseguem transmitir o mesmo sentimento que em 67 – infelizmente a desesperança e o cinismo continuam vivos.

Daí para frente, poderia citar o primeiro dos Stooges, “Let It Bleed” dos Stones, “The Dark Side Of The Moon” do Pink Floyd, “Entertainment!” do Gang Of Four, “London Calling” do Clash, “Closer” do Joy Division, “Nevermind” do Nirvana e alguns outros (“Metal Box” e “Parklife” me vêm a cabeça), para finalmente chegar no motivo desse texto: “Ok Computer” do Radiohead.

Desde o início de sua carreira o Radiohead apresentou uma visão que diferia bastante do senso comum. Canções como “Anyone can play guitar” e “Pop is dead” podem ser vistas hoje como menores na trajetória do grupo, mas certamente provocaram alguma reflexão quando lançadas lá nos idos de 93/94.

“The Bends”, disco de 1995, veio para confirmar essa visão que algo ainda fedia a desodorante barato no mundo moderno. O álbum traz a sensação de um indivíduo sufocado pelo nó da gravata, pressionado pelo relógio e pelo calendário, soterrado pela quantidade absurda informação que passa pela tela da TV ou do computador. Porém, em “The Bends” o foco do Radiohead é ainda só o indivíduo. Os problemas ainda são vistos na escala da particular, o que basicamente marca a diferença para a temática do disco seguinte.

Lançado em junho de 1997, “Ok Computer” joga luz sobre uma sociedade alienada e desesperançosa com seu futuro. Na verdade, pouco se fala em algum futuro, no sentido de que algo possa ser estruturalmente diferente desse momento histórico. É antes de tudo uma sociedade que se move pela inércia e não pela vontade, pela paixão. Ficamos frios. Viramos máquinas. Somos uma massa uniforme de andróides paranóicos que apenas se dão o trabalho de encaixar numa rotina de exercícios físicos e contas pagas regularmente.

Musicalmente, a banda vai buscar referências em bandas ou movimentos estéticos que em algum momento sugeriram algo parecido com as passagens angustiantes de “Ok Computer”. Temos então o niilismo absoluto embalado das guitarras do rock alternativo americano (Pixies e Nirvana); as paisagens espaciais e o anticapitalismo do Pink Floyd de “The Dark Side Of The Moon”; a retórica política e sufocamento dos ritmos rigidamente marcados do pós-punk; e por fim as experimentações eletrônicas diversas nos fazendo questionar o quão humanos ainda somos.

Como na sociedade profetizada por George Orwell em “1984”, o presente de “Paranoid Android” e “Karma Police” é aquele em que tudo deve estar sob controle. Nossos reflexos nos olhos dos outros são as câmeras de vigilância desse Big Brother invisível, que não é ninguém e é todo mundo. Emparedados nas avenidas amplas dos grandes centros. Como no refrão mais marcante do disco (o de “Let Down”, quinta faixa), estamos amassados como insetos no chão. “Exit music (for a film)” nos joga de volta a “The Bends”: a sensação de sufocamento é parecida com a do álbum anterior, mas é mais intensa. A voz nua de Thom Yorke vem a frente, amparada por um coro fantasma, órgãos, um guitarra repetitiva que no meio explode em efeitos e ruídos diversos. Não por acaso a letra repete “breath, keep breathing”. Mantenha se vivo, pelo menos.

Essa falta de perspectiva é muito bem explicada numa das faixas menos conhecidas do disco, “Electioneering”. A ausência de política tanto na esfera do Estado, quanto na esfera pessoal nos coloca em situação letárgica, apenas nos adaptando às novas demandas da máquina social, seguindo o guia das boas maneiras proposto pela faixa anterior, “Fitter happier”.

“No surprises” põe de volta o foco sobre o indivíduo. Num último lampejo de lucidez – confundido com a alienação completa – pedimos apenas uma vida quieta, cheia de monóxido de carbono e um coração tão cheio quanto um aterro sanitário.

O desespero da ausência de uma luz do fim do túnel se mostra uma tranqüilidade nas duas últimas faixas de “Ok Computer”. “Lucky” até parece um último sussurro de esperança delirante (“I am your superhero”), mas o clima espaçoso de “The tourist” (lembrando as paisagens sonoras de Brian Eno) enterra de vez qualquer chance de mudança, ou pelo menos fuga.

Não há para onde correr. Pare idiota. Eles (o coletivo indefinível) já tinham vencido há 10 anos atrás. So no alarms and no suprises, please.

 
Radiohead – Ok Computer
Ano de Lançamento: 1997
Selo: Capitol
1. Airbag
2. Paranoid Android
3. Subterranean Homesick Alien
4. Exit Music (For A Film)
5. Let Down
6. Karma Police
7. Fitter Happier
8. Electioneering
9. Climbing Up The Walls
10. No Surprises
11. Lucky
12. Tourist, The

por Livio Vilela

 


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