
Para um artista, o bem mais precioso a ser possuído e até mesmo cultivado é o de ser “pretensioso”. Pretensioso no sentido de “ter pretensões”, almejar estar além do ordinário para ser capaz de traduzir, em cada uma de suas obras, o espírito do tempo em que vive. Billy Corgan tem pretensões e seu Smashing Pumpkins está de volta para nos dizer em que tempo vivemos.
Ao anunciar seu retorno, o ex-e-atual frontman dos Smashing Pumpkins provavelmente não foi inteiramente compreendido, tanto pela crítica quanto por parte de seus antigos fãs. Sua última banda (o subestimado Zwan), que tinha como peças chaves o próprio Corgan e o baterista original dos Pumpkins Jimmy Chamberlain, não parecia muito diferente do que seriam esses “novos” Smashing Pumpkins. A retomada do nome soava como uma estratégia publicitária já que os nem D’arcy Wretzky e nem James Iha restabeleceriam a formação original. No entanto, ao lançar seu “Zeitgeist”, incontestavelmente diferente do único trabalho do Zwan, Billy Corgan cumpriu sua promessa e ressuscitou os Smashing Pumpkins, em alto e bom som.
Como uma das poucas, talvez única banda de rock que sobreviveu aos anos 90 sem se apegar a um estilo específico, os Smashing Pumpkins, na figura de seu líder, sempre se colocaram como um grupo que fala sobre si mesmo, e por conseqüência, sobre o contexto no qual vivem, discursando portanto, com os milhões de outros Billys que se identificam com cada acorde e letra por eles construída.
Sabiamente escolhendo a palavra alemã “Zeitgeist” para intitular seu trabalho, Billy Corgan traz à tona a necessidade de se debater o “espírito do tempo”, colocando em discussão os valores contraditórios nos quais a sociedade contemporânea se encontra submersa e afundando.
Como patrono dessa ousada iniciativa (tão ousada e intempestuosa quanto os próprios Smashing Pumpkins), Billy evoca Franz Kafka em cada uma de suas faixas, traduzindo (assim como o autor traduziu), o homem do século XXI, cheio de conflitos existenciais que o impedem de chegar a uma solução a respeito de si mesmo. Uma das principais características de Kafka é justamente o sentimento de isolamento diante das circunstancias cada vez mais atenuantes que o mundo parece apresentar. A falta de objetivos claros, a busca pela solidão como única chance de fuga, a paranóia e os delírios de um homem cuja única opção é continuar vivendo em um mundo incapaz de compreende-lo a ponto de se virar contra ele próprio são marcas tanto do trabalho de Kafka quanto do trabalho dos Smashing Pumpkins, em todos os seus discos anteriores e também nesse novo “Zeitgeist”.
Com uma sonoridade mais pesada do que nunca, graças ao entusiasmo de um novo-velho Jimmy Chamberlain, o disco começa com a forçosamente incômoda e eficaz “Doomsday Clock”. A alusão ao clima apocalíptico é clara, o mundo é visto como em meados da Guerra Fria, assolado por um “relógio do juízo final” que pode chegar a meia noite a qualquer instante (lembranças a Watchmen!), no qual seu protagonista se apresenta como alguém que chegou ao topo, pensando ter nascido livre, mas confirmando somente agora seu maior temor, o de que o mundo esta para acabar e isso é uma certeza. Certeza que ele transmite para “7 Shades of Black”, aonde lamenta pelo apocalipse ao som de um rock “old school”, numa espécie de balada de rejeição. Tão pesada quanto o senso de solidão ao qual todos estamos presos em tempos cujo máximo valor é o individualismo.
Em “Bleedind The Orchid”, Corgan é uma estrela no palco, tentando entender os elementos que o levaram até aquele ponto, uma faixa predestinada a ser um clássico dentro da discografia dos Smashing Pumpkins. O clima intrigante, que dá vazão a múltiplos sentidos, remete as melhores faixas da banda, mesmo sendo um pouco mais acelerado do que qualquer um dos velhos hits dos anos 90, nessa música em especial a banda homenageia a si mesma e a tudo aquilo que produziu de melhor.
De homenagem ao próprio Smashing Pumpkins à homenagem ao trabalho anterior, Zwan, com “That´s The Way (My love is)”, a melodia mais romântica do álbum, pouco criativa em relação ao resto do disco, mas com uma tentativa de criar um clima capaz de destacar seu apelo emocional. Uma espécie de ilha de calmaria num oceano de canções tempestuosas.
Oceano que logo volta a ser tempestuoso com o primeiro single, a controversa “Tarantula”, provavelmente uma das faixas mais pesadas de todo o disco, tratando de um dos temas mais filosoficamente espinhosos do trabalho: o existencialismo. Não apenas o literário, representado por Kafka, mas também o existencialismo pós-moderno de Baudrillard que pode ser ilustrado tanto pelo verso “We are surreal, ‘cause someone gave us up.” quanto pela escolha (aparentemente bizarra) da capa do single, Paris Hilton. A letra e a figura tem o papel de ilustrar um mundo “virtual” pois cria seus ícones a partir de imagens e dá a elas o poder ilusório de serem reais, um conceito conhecido como hiperrealidade. Para ouvidos desatentos, a faixa tem pouco apelo quando escutada uma ou duas vezes sem muita atenção, mas a escolha de Billy reitera seu lado pretensioso e provocativo, ao desafiar o ouvinte e a crítica a entenderem suas palavras, uma missão não abraçada pela massa julgadora. Algo que ele já havia previsto encerrando com os versos “If it’s a white hot soul they want / then a black heart they’ll get”.
Ainda em tom de provocação, “Starz” anuncia “Don’t you know we cannot die? / We are stars, we are”, onde é debatida a liberdade de se chegar ao topo, poder fazer o que quiser tendo que pagar o preço de suas próprias escolhas. O conflito é ter que arcar com as tais conseqüências de suas decisões. Nada de novo aí, pois o conflito é característica da época, portanto universal. A ilustração disso vem com “United States”, a tentativa mais experimental de um trabalho tão “rock” quanto “Zeitgeist”. Clamando pela revolução, a batida pesada, os solos intermináveis e a letra que dura pouco mais de 9 minutos é uma marcha para soldados. Um hino para aqueles que não sabem pelo que lutar, um atestado da cultura alienante na qual o país-título se vê imerso. Sam Mendes a colocaria fácil num de seus filmes, mas provavelmente cortaria alguns minutos.
A dupla “Neverlost” e “Bring The Light” quebram o clima pesado. Com suas melodias mais radiofônicas, elas trazem mais a voz anasalada de Billy acima dos instrumentos, ambas aludindo a esforços sonhadores, solitários, desejos de ser ouvido, ser sentido. Em “Neverlost”, ele quer se fazer presente através da música, seu instrumento de conexão com o ouvinte enquanto espera o fim do mundo. Em “Bring The Light”, traz uma tentativa de escapada para um lugar em que ele se sente real, certo e vivo. Longe do caos do resto do disco e abrindo caminho para “(Come on) Let´s Go!”, a mais pessoal do trabalho. Nela é possível ouvi-lo admitindo erros e pedindo ajuda para retornar a um estágio mais pacato de sua vida.
Encerrando “Zeitgeist”, o ponto fraco “For God and Country”, um repeteco de “United States”, mais fácil de ser assimilada pelo ouvinte médio, mas que não inova em temática ou em melodia, chegando a aborrecer. Fica fácil pular para o final de verdade em “Pomp and Circumstances”, mais lírica, e que serve de resumo pois nela são cantados todos os temas do álbum. Voltam as noções de se estar perdido, ter chegado no topo e viver numa época em que o medo e a vergonha andam de mãos dadas. Um tempo em conflito com seus próprios valores. Algo que fundamenta a paranóia e abre espaço para o verso final capaz de definir o isolacionismo do protagonista pós-moderno: “I won’t tell a soul / That I’m mad as hell”.
“Zeitgeist” é um bom álbum, um trabalho que transpira o nome “Smashing Pumpkins” e que atende aos pedidos dessa primeira década do século XXI por um som mais urgente, mais cheio de pretensões. Algo que parte da crítica não entendeu, não valorizou, acusando a banda de fazer um rock menos exigente em sua sonoridade.
Em cada faixa “Zeitgeist” traz protagonistas reais, projeções do próprio Billy Corgan, do próprio Kafka, nas quais ele expõe os seus medos, a sua angústia perante o novo mundo, exprimindo sua solidão interior a todos aqueles que quiserem, paradoxalmente, acompanhá-lo.
É o mais puro Smashing Pumpkins… em um som cada vez mais alto.
por Denis Pacheco
Parabéns. Melhor resenha que eu já li do Zeitgeist, um álbum excepcional que está sendo subestimado por uma críticos que já o ouvem com o objetivo de achar ruim.
Por: Eduardo em 8 Agosto 07
às 10:01 pm
nem toda essa tua teoria sobre o corgan salva zeitgiest do posto de pior retorno de 2007. tão ruim quanto o disco do stooges.
Por: Livio em 22 Agosto 07
às 11:07 pm
Livio está completamente enganado. Zeitgeist é um disco muito, muito, bom. Uma das melhores voltas, o disco parece feito por uma banda que não parou por nenhum momento.
Por: Luiz em 10 Setembro 07
às 3:58 am