Publicado por: Revista YMSK | 7 Agosto 07

Superguidis – A Amarga Sinfonia Do Superstar

  

      Há duas coisas que geralmente funcionam em toda história do rock. Por mais chula que seja a idéia da música toda, um bom riff de guitarra costuma salvar todo o resto. Pense no Keith Richards e nos Rolling Stones: mais de 40 anos de carreira sustentados em grande parte pelo melhores riffs que já saíram de uma guitarra. Um típico rock dos Stones é sempre apoiado num grande riff, mesmo que discretamente “roubado” e alterado de outra música da banda.

Outra coisa que sempre funciona, e grande parte das pessoas acredita (me incluo nessa) que o melhor do Rock é basicamente sobre isso, são as historinhas do tipo garoto-conhece-garota-garoto-se-apaixona-por-garota-e-toda-aquela-confusão-que-guia-a-história-desde-que-o-mundo-é-mundo. É o que os gaúchos da Bidê Ou Balde diziam naquele distante 2000, intitulando seu debut de “Se Sexo É O Que Importa, Só O Rock É Sobre Amor”.

Também gaúchos, cheios de bons riffs e complicações amorosas são os Superguidis, que chegam agora no segundo disco com “A Amarga Sinfonia Do Superstar”. São 12 canções (contado com a metalingüística “Riffs”, escondida no final do disco) que funcionam como polaroids de situações inegavelmente experimentadas por cada um de nós. A palavra-chave de “A Amarga Sinfonia Do Superstar” é identificação. É até uma contradição com o título do álbum, mas a dupla de compositores e guitarristas Lucas Pocamacha e Andrio Marquenzi vence mesmo quando mira, com um foco bem fechado, numa multidão sem-rosto que ainda insiste em não render-se ao cinismo, quando se fala de amor e todo o pacotão de problemas anexos.

“Por entre as mãos”, a primeira faixa, escancara essa intenção, falando de uma daquelas relações-bomba, que costumamos encontrar pelo meio do caminho. Por cima de uma bela cama de guitarras, a letra de Lucas Pocamacha crava que alguém pode ser o melhor naufrágio de um outro, por mais que seja, enfim, um naufrágio. O “pacotão de problemas anexos” do qual falava aí em cima chega logo em seguida com “Mais do que isso”, discorrendo sobre todas as pressões de ser sempre melhor do que si próprio. Aquela velha cobrança que a nossa tia velha do inconsciente de ser um bom cidadão, um bom trabalhador, um bom amigo, um ótimo amante…

Mas os caras do Superguidis não deviam se cobrar tanto. Passado mais de um ano e meio do lançamento debut, a banda afasta para longe a síndrome do segundo disco (mal tipicamente britânico, é bom lembrar) e mostra discretas, mas certamente eficientes mudanças em “A Amarga Sinfonia Do Superstar”. Com o auxílio de Phillipe Seabra (que se mostra, afinal, um bom produtor), o Superguidis deixa um pouco de lado o gosto pela produção lo-fi (que só funcionou mesmo como arma estética lá nos idos de 94), mas ainda guarda do estilo a paixão pela melodias fortes e simples, e claro, pelos riffs matadores. A referência de sempre é o Guided By Voices, a diferença é que se no debut eles preferiam (e de certa forma, sofreram por isso) o GbV do clássico “Bee Thousand”, agora o Superguidis soa como os últimos discos da banda americana, mais trabalhados, melhor produzidos, sem nunca perder a sinceridade, nem a espontaneidade.

Outra mudança discreta é um certo gosto por levadas mais post-punk e, com isso, mais alinhadas com a produção indie mundial. Os exemplos mais claros são “Parte boa”, “Ainda um sem nome” (que ainda guarda um pouco do clima nonsense de algumas letras do debut) e “Apenas leia”, que acaba se tornando a melhor música do disco. Rápida e visceral, faixa é tão sem tempo quanto a letra, um daqueles momentos em que o Superguidis faz da economia nas palavras algo bem mais significativo, coisa que parte do rock brasileiro pós-Los-Hermanos infelizmente ignora.

E talvez essa economia seja o grande certo do Superguidis. Como os riffs, as emoções de “A Amarga Sinfonia Do Superstar” são extremamente simples, e mesmo assim intensas. Vitais, como o rock. Afinal, na luta diária contra o cinismo, há quem ainda esteja disposto (e muito) a acreditar no amor, nos riffs e nessa coisa toda.

por Livio Vilela


Respostas

  1. [...] Pitch”, Panda Bear 06) “The Magic Position”, Patrick Wolf 07) “Andorra”, Caribou 08) “A Amarga Sinfonia Do Superstar”, Superguidis 09) “Neon Bible”, The Arcade Fire 10) “Our Earthly Pleasures”, Maxïmo Park [...]


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