
Provavelmente, quando alguém estiver escrevendo a história musical dessa década, o The Arcade Fire será lembrado com uma de suas bandas mais representativas. Digo isso no sentido que o coletivo canadense agrupa na essência de sua sonoridade várias características da maioria das correntes estéticas que estão marcando os anos 2000. Estão presentes a forte influência do pós-punk (no caso, Talking Heads, Joy Division, Pixies, Echo & The Bunnymen); os arranjos elaborados em contraste às texturas lo-fi que marcam o neo-folk/freak-folk; o apego pelo rock de estádio (como fazem Coldplay, The Killers e Muse); a influência tardia de Bruce Springsteen (The National, The Hold Steady); e até a comoção exagerada e a morbidez – alguns diriam sinceridade – do emo (My Chemical Romance, pelo menos).
Tudo isso faz de “Neon Bible” certamente o álbum mais importante para o rock em 2007. E o Arcade Fire sabe disso. Em termos discursivos, é uns dos álbuns que melhor dialoga com aos anos 2000 até aqui. Confusão, informação, religião. Terrorismo, consumismo, ceticismo. Se “Funeral” analisava a perda com minúcia microscópica, “Neon Bible” explode seu objeto de estudo para escala global. A vizinhança do primeiro disco é trocada pela preocupação em prever onde as bombas vão cair, como implora Win Butler a seu espelho na faixa de abertura, “Black Mirror”.
Hábil em contrariar expectativas, o Arcade Fire transforma o que poderia ser a missa do fim do mundo numa espécie de ópera das grandes (e últimas) esperanças. Se a temática e a condução de algumas faixas são declaradamente sombrias, há também canções que contagiam e despertam a vontade (mesmo que momentânea) de acreditar em certas coisas, nas quais alguns já perderam a fé. Melhor exemplo disso é a segunda música do disco, “Keep the car running”, que transborda – ao mesmo tempo – influências de New Order (fase “Power, Corruption & Lies) e Bruce Springsteen.
Também se pode traçar um paralelo com o “Boss” na relação do álbum com religião. Criados dentro do catolicismo, o pessoal do Arcade Fire desde o primeiro guarda esse clima de celebração espiritual, cheia de coros – lembremos-nos do memorável início de “Wake up” – e órgãos. São estes que convidam o ouvinte para missa antibelicista de “Intervention”, canção que escapa do piegas por sua letra contudente e, certamente, o momento mais dedo na ferida do álbum. Outra faixa que guarda esse tom religioso é “(antichrist television blues)”, tipicamente springsteenana e lotada de referências à espiritualidade católica.
A ponte com “Funeral” é estabelecida por “Ocean of noise” e “The weel and the lighthouse”, respectivamente, uma balada tão dolorida quanto “Crown of love” e um tiro pós-punk como “Neightborhood #2 (Power out)”. Pontes também são estabelecidas com o EP de estréia da banda ao regravarem com um arranjo grandioso e uma produção cuidadosa o petardo “No cars go”, favorita dos fãs e uma das mais poderosas nas catárticas apresentações ao vivo.
“My body is a cage” fecha o álbum, trazendo a lembrança que, por mais globais que sejam as tormentas, o foco dos canadenses continua sendo o ser humano perdido no próprio caos do mundo que criou para si. Nesse ponto, a metáfora usada por Win para definir “Neon Bible” cai como luva: “é como estar sozinho, de noite em alto mar”. Nada muito diferente do mundo apresentado com tintas mais que realistas nessa bíblia néon. Tempos difíceis, não?
por Livio Vilela
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Por: Revista YMSK elege os 10 melhores discos de 2007 « [Your Mother Should Know] em 23 Dezembro 07
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