
Com seus respectivos lugares-comuns, o final do ano é a época mor para listas de melhores isso-e-aquilos. Nada distante da onda global, a Revista Your Mother Should Know reuniu parte de seus editores e colaboradores para compilar o que seria a nossa versão de uma lista dos melhores do ano no mundo da música. Depois de algumas discussões, lágrimas silenciosas e um sem número de desculpas esfarrapadas de colaboradores defendendo o “por quê” de determinada banda merecer o lugar máximo no podium, chegamos a uma compilação que tem o objetivo de agradar à gregos e troianos. Claro que só entraram aqui aqueles que (mesmo que só “alegadamente”) se mantém com os pés fincados no rock. Segue agora a tão contestada lista, esperamos que gostem:

1) National – “Boxer”
Assim sem muito alarde, a banda nova-iorquina The National atraiu todos os holofotes da crítica para si permanecendo, até mesmo dentro da revista YMSK, como quase unânime entre as grandes surpresas do ano de 2007. Com seu terceiro álbum “Boxer”, a banda liderada por Matt Berninger ressuscitou um determinado timbre, marca de artistas específicos como Nick Cave e Leonard Cohen, e voltou a cantar as angústias do amor e da vida com a seriedade adulta que soa rara no atual contexto do rock. Singles de lançamento discreto como “Mistaken for Strangers” e “Apartment Story” assumiram a posição de mais escutadas nos Last.fms espalhados pelo globo. Acompanhado por um bem escolhido conjunto de sopros, cordas e violinos, “Boxer” é um banquete para todos os que gostam de boa música, feita para se ouvir sozinho. As letras são poéticas, mas poderosamente realistas, sempre querendo dizer mais do que parecem. Versos pontualmente marcantes como “Walk away now / And you’re going to start a war”, tornam-se a mantras para refletirmos e absorvermos as verdades sobre nossas próprias relações com o mundo. (por Denis Pacheco)

2) Spoon – “Ga Ga Ga Ga Ga”
Se você procura por algo original, não tem como ir além do que o Spoon, excelente banda texana, fez em 2007 com seu brilhante “Ga Ga Ga Ga Ga”. O título, referência dadaísta, deixaria Hugo Ball e Tristan Tzarza orgulhosos por refletir nada mais do que uma sonoridade infantilizada, sem sentido racional. A arte pura começa logo com a hard-rockish “Don’t Make Me a Target”, uma espécie de manifesto musical que já se defende caso o ouvinte (seja ele quem for, “somos todos críticos”) queira enxergar lógica nesse trabalho claramente emocional. Mantendo o clima desafiador também nos títulos de suas faixas, “Rhthm & Soul”, “You Got Yr. Cherry Bomb” e “Don’t You Evah”, Spoon provoca seu público a reagir até mesmo contra as correções ortográficas que, para a banda, não deveriam caber dentro de suas construções sonoras. Variando entre canções mais experimentais e outras com maior apelo radiofônico (a la “Revolver”), “Ga Ga Ga Ga Ga” caracteriza-se a todo momento por ser uma original declaração de amor a música e ao rock em todas as suas representações. (por Denis Pacheco)

3) Maximo Park – “Our Earthly Pleasures”
Como bons fãs de “Alta Fidelidade”, ninguém aqui pode negar que muitas vezes fica difícil separar nossas emoções da maneira que encaramos um disco ou uma canção. Quando ouvi pela primeira vez “Our Earthly Pleasures”, meu cérebro sampleou Nick Horbny e se perguntou se era só o pop incrivelmente bem feito ou era a minha miséria que fazia aquelas canções parecerem tão dilacerantes. Bem, quase um ano depois e todas essas canções provocam a mesma reação. Acho que não sou tão miserável assim, sou? “Our Earthly Pleasures” mostra o Maxïmo Park desacelerando o ritmo da bateria, para explodir suas emoções. As letras de Paul Smith – diretas, magoadas, desconcertantes – estão ainda mais afiadas, passeando por personagens que podiam ser qualquer um de nós. Ouvir certas canções do álbum é como ver um trailer dos nossos próprios problemas. O exemplo mais claro disso é “Your urge” em que a voz de Smith começa empilhando frases desconexas, amparada por um dedilhado de piano. Enquanto isso, as guitarras aparecem em progressão e até explodirem num quase-refrão que te entala o próprio coração na boca, ao mesmo tempo em que faz seu cérebro projetar milhares instantâneos. São flashes: o beijo, o tapa, o movimento da pálpebra, o aceno, a primeira lágrima. Coisas demasiado pessoais para estarem saindo da boca de um cantor de rock. (por Livio Vilela)

4) Radiohead – “In Rainbows”
Quem acompanha o Radiohead nesses quase 15 anos de carreira percebe que a trajetória da banda foi guiada por redirecionamentos estéticos a cada disco, sejam eles mais bruscos (de “The Bends” para “Ok Computer” e depois rumo a “Kid A”), ou mais suaves (de “Pablo Honey” para “The Bends”, de “Kid A” para “Amnesiac”). “In Rainbows”, o sétimo álbum, pertence a esse último grupo de guinadas leves e certeiras. Mesmo com toda revolução relacionada com o seu lançamento, – disso tratamos aqui – “In Rainbows” mostra um Radiohead de velhas cores em novos tons. São Thom Yorke & cia. pisando em terrenos familiarmente próximos a sua obra (o noise-rock, a eletrônica de vanguarda, o jazz, o rock progressivo, orquestrações suntuosas, baladas atmosféricas), mas de maneira suficientemente distante para saciar suas pretensões artísticas. Mais aqui… (por Livio Vilela)

5) Interpol – “Our Love To Admire”
Enquanto alguns ainda perdem o tempo rotulando os 4 rapazes de “Joy Division 21st century”, o Interpol continuou trabalhando com apenas uma regra para fazer música: agradar a si mesmo. Os fãs conquistados no decorrer de 3 discos são apenas uma feliz conseqüência. Resumo da opereta: o Interpol pode ter mudado de Turn on the bright lights até Our love to admire, porém continua fazendo rock que soa apenas como ele próprio, distanciando-se cada vez mais de qualquer semelhança que atraia a atenção de pessoas ávidas por uma música que talvez não exista mais. No fim, OLTA é um resultado de se admirar, sem pedir perdão pelo trocadilho inevitável! (por Lidiana de Moraes)

6) Wilco – “Sky Blue Sky”
Cria dos 90, sucesso crítico (e quase comercial) nos 2000. O Wilco tem uma carreira estranha – cheia de pequenas crises, grandes redirecionamentos estéticos e muito, muito brilhatismo. “Kicking Television”, álbum que antecede esse “Sky Blue Sky”, se não explicava, pelo menos reavaliava toda a pequena revolução que a banda fez no rock nos seus melhores discos: a trilogia “Summerteeth”, “Yankee Hotel Foxtrot” e “A Ghost Is Born”. Os três álbuns trazem o Wilco – antes um grupo até bem tradicional de alt. coutry-rock – numa viagem marcada por experimentalismos diversos (dream pop, progressivo, space-rock, noise, krautrock, e qualquer barulho tirado de um rádio quebrado) através do coração humano. Comandado pela mente psicótica-narco-depressiva de Jeff Twedy, o Wilco sabotou positivamente suas melodias, com o intuito de nos lembrar que o amor é, sim, belo, mas também caótico, confuso e ruidoso. Porém, como indica o título desse álbum, o céu do Wilco mudou. “Sky Blue Sky” é um disco sincero, de uma clareza única. Twedy – agora recuperado de todos os seus vícios além do amor – exibe suas melodias e letras como jóias que devem brilhar por si só. Não há caos dos últimos momentos de “Via Chicago”, não há as interferências de uma rádio perdida como em “Yankee Hotel Foxtrot” e não há o êxtase convulsivo e doloroso de “Spiders” e do solo de guitarra de “At least that’s what you said”. Não há uma nota, letra, vírgula ou ponto final que esteja fora de lugar. Mas tudo continua belo. Genial, como o Wilco sempre foi. (por Livio Vilela)

7) Arctic Monkeys – “Favorite Worst Nightmare”
Eles começaram com a promessa de fazer um dos álbuns do ano, e nas votações internas da Revista YMSK eles chegaram lá. Os jovens ingleses do Arctic Monkeys invadiram as paradas musicais sem avisar e assumiram a posição mais alta do rock britânico de forma quase que meteórica. Em seu segundo trabalho, a banda liderada pelo tímido Alex Turner não só continua a mostrar a que veio como também dá indicações de que está pronta para dominar futuramente as paradas pop internacionais, reconquistando os EUA e o resto do mundo e ressuscitando o imperialismo britânico do rock. Com seu primeiro single “Brianstorm” roubando todas as atenções, os macacos ressoaram como trovões assumindo tons de sarcasmo e descrença tanto diante da vida tão bem letrada em suas composições quanto da fama recém adquirida graças a uma página na rede social MySpace. O jeito de cantar como se estivesse conversando com seu público de Alex Turner espalhou-se pela música britânica chegando a dar muitas crias em 2007 em diversos sub-estilos musicais. Se Libertines pareceu influenciar grande parte da música inglesa nos anos 2000, Arctic Monkeys promete não apenas parecer, mas ser o grande nome musical do novo rock, unindo na melhor tradição clashiana elementos que vão do punk, do rap, do reggae e por que não da psicodelia sempre tão presente nos melhores de cada geração roqueira. (por Denis Pacheco)

8 ) Arcade Fire – “Neon Bible”
Provavelmente, quando alguém estiver escrevendo a história musical dessa década, o The Arcade Fire será lembrado com uma de suas bandas mais representativas. Digo isso no sentido que o coletivo canadense agrupa na essência de sua sonoridade várias características da maioria das correntes estéticas que estão marcando os anos 2000. Estão presentes a forte influência do pós-punk (no caso, Talking Heads, Joy Division, Pixies, Echo & The Bunnymen); os arranjos elaborados em contraste às texturas lo-fi que marcam o neo-flok/freak-folk; o apego pelo rock de estádio (como fazem Coldplay, The Killers e Muse); a influência tardia de Bruce Springsteen (The National, The Hold Steady); e até a comoção exagerada e a morbidez – alguns diriam sinceridade – do emo (My Chemical Romance, pelo menos). Tudo isso faz de “Neon Bible” certamente o álbum mais importante para o rock em 2007. E o Arcade Fire sabe disso. Em termos discursivos, é uns dos álbuns que melhor dialoga com aos anos 2000 até aqui. Confusão, informação, religião. Terrorismo, consumismo, ceticismo. Se “Funeral” analisava a perda com minúcia microscópica, “Neon Bible” explode seu objeto de estudo para escala global. A vizinhança do primeiro disco é trocada pela preocupação em prever onde as bombas vão cair, como implora Win Butler a seu espelho na faixa de abertura, “Black Mirror”. Mais aqui… (por Livio Vilela)

9) LCD Soundsystem – “Sound of Silver”
O disco leva as palavras de ordens de 2007 – “do the D.A.N.C.E., do the D.A.N.C.E.!” – mais do que a sério e o resultado é uma das melhores obras resultantes da fusão entre rock e eletrônica, rivalizando com os melhores discos do New Order e do Primal Scream. Segundo o próprio James Murphy (faz-tudo do LCD), “Sound Of Silver” é uma metáfora para a maturidade que seu pai uma vez havia lhe dito. Não caberia título melhor, porque se há uma qualidade que diferencie o disco de todos os vários lançamentos bancando a mesma fusão, essa característica é a maturidade. Seja na escolha acertada de quando usar um falsete meio Prince (“Time to get away”), seja quando preferir um tom mais Bowie (“Get innocuous”, “Sound of silver”), ou então quando discretamente furtar umas idéias do minimalismo da eletrônica atual (“Someone great”). E ainda por cima arranjar espaço para homenagear ídolos como o The Fall em “Watch the tapes” e John Lennon na baladinha “New York, I love you but you’re bringing me down”. Maturidade também nas letras e o melhor exemplo disso é a melhor faixa do disco e do ano, “All my friends”. Piano, bateria, syths, delicadas programações eletrônicas, uma baita linha de baixo (lembrando o New order dos primeiros tempos) e a voz tímida, mas segura de James Murphy abafando todos esses elementos cantando a melhor letra sobre amizade desde “With a little help of my friends”, há 40 anos atrás. Mais aqui… (por Livio Vilela)

10) Vanguart – “Vanguart”
Como únicos brasileiros da lista, fizemos uma matéria completa para essa banda folk, rock, indie, fora do eixo! Mais aqui…
[...] no hall de excelentes bandas de rock ainda ativas. Eleito por essa revista o segundo melhor lançamento do ano passado, seu sexto disco “Ga Ga Ga Ga Ga” foi, para dizer um mínimo, uma excelente resposta a [...]
Por: Spoon « [Your Mother Should Know] em 20 Fevereiro 08
às 1:21 pm
[...] 30, 2008 · 1 Comentário 01) “Sound Of Silver”, LCD [...]
Por: Os 50 Melhores Discos de 2007 « perdido no supermercado em 21 Setembro 08
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