Publicado por: Revista YMSK | 23 Dezembro 07

Vanguart, a banda brasileira de 2007

Vanguart - Divulgaçao

                                                                                 

Sensação do mercado independente, Vanguart quer carreira sólida

         Ele interrompe a entrevista e pede água para o produtor da banda, Bruno Montalvão. A voz de Hélio Flandres não está nos seus melhores dias devido aos excessos da noite anterior, mas ele fala com a tranqüilidade de quem já deu muitas entrevistas esse ano. “Ninguém vai estourar mais”, ele diz confiante. Hélio é fundador, vocalista e principal compositor do Vanguart, banda de Cuiabá que se tornou o rosto do rock independente brasileiro em 2007.

Só este ano o grupo já rodou o Brasil no circuito de festivais independentes, tocou pela primeira vez em rede nacional (no programa da Rede Globo “Som Brasil” dedicado a Raul Seixas), foi indicado ao VMB pela segunda vez (ano passado o vídeo para “Cachaça” foi indicado a melhor clipe independente), e nos últimos meses tem se dedicado à promoção do primeiro disco, celebrado como um dos melhores lançamentos de 2007. A escalação como show principal do único palco dedicado à música brasileira no TIM Festival teria sido a consagração de um ano só de lucros, não fosse a chuva que inundou a Marina da Glória naquele 26 de outubro e fez a apresentação ser cancelada. No entanto, como todas as outras promessas da música brasileira em 2007, o Vanguart não ‘estourou’ nos moldes conhecidos pela indústria. Erro de futurologia ou uma mudança no conceito de sucesso?

“A maioria das bandas independentes do Brasil está construindo uma carreira sólida e não só uma carreira de tentativas de hits ou tentativa de emplacar. Claro que existem bandas no meio das independentes que sonham com isso, mil artistas que vivem para estourar. Eu acho que isso é uma utopia, não vai acontecer. Ninguém vai estourar mais. Vão ter fenômenos isolados como o Calypso, mas a maioria das bandas está mais preocupada em construir uma carreira sólida, de tocar em festivais e pensar em projetos mais específicos”, declara Hélio esboçando um sorriso otimista de quem parece estar satisfeito com o que conseguiu até agora.

Na verdade, até 2004, o Vanguart se resumia a Hélio, seu violão e a internet.

“Para mim foi natural disponibilizar as músicas para download. Essencialmente, o Vanguart não era uma banda, eu não fazia show, então ia fazer o que? Botar na internet! O show era colocar as canções na rede”, revela sobre os EPs “Ready To…” (2002) e “The Noon Moon” (2003), até hoje disponíveis na página da TramaVirtual.

Foi só na volta de uma viagem à Bolívia (cantada na música “Los chicos de ayer”), que o projeto se tornaria uma banda completa com a entrada de David Dafre (guitarras), Reginaldo Lincon (baixo e vocais), Douglas Godoi (bateria) e Luiz Lazarotto (teclados). O lugar-comum para descrever o som do grupo é dizer que ele “flutua numa dimensão perdida dos anos 60”, o que na verdade significa muito Bob Dylan, Beatles e Velvet Underground positivamente adulterados por algumas audições do Clube da Esquina e de “Ok Computer”, do Radiohead.

De 2004 até aqui, foram-se três anos de muito trabalho, grande parte com muita ajuda da divulgação on-line:

“Quando eu comecei foi muito natural usar a internet e eu só caí na real agora que nem todo mundo usava. Eu nunca vi o Vanguart como uma banda de internet, porque eu achei que todas as bandas já fossem assim, que elas tinham mesmo que se adequar. As coisas mudaram, não é a mesma maneira de se trabalhar, mas eu achei que todo mundo já estava usando essas novas ferramentas”, conta Flandres sobre a influência que recursos como o TramaVirtual, o Fotolog e o Orkut tiveram na carreira da banda.

Mas nada foi tão decisivo para o Vanguart quanto a participação constante nos vários festivais independentes que vem surgido no Brasil nos últimos tempos. Só este ano foram mais de dez, a maioria delas longe de Rio e São Paulo. Muito por causo disso o Vanguart acabou se tornando a face mais conhecida do movimento Fora do Eixo, que integra vários pólos de produção de música espalhados do Acre ao Rio Grande do Sul num circuito que visa dar projeção às manifestações artísticas à margem das duas maiores metrópoles brasileiras.

“A gente estava exilado e de repente o exílio virou um novo ‘eixo’. Se você pegar o pessoal do de Goiânia da Monstro Discos, o pessoal do Espaço Cubo de Cuiabá, o pessoal lá do Acre, do Catraia Records, a galera do DemoSul em Londrina…não é algo que aconteceu do nada, tem muito trabalho envolvido nisso. Foi um leitura da cena que estava acontecendo e uma puta vontade de mudar isso “, diz com um certo orgulho, ”Pode até parecer uma coisa tola, mas fora do eixo sempre houve o fantasma da banda cover. Não existia maneira de fazer diferente e com muito trampo o pessoal conseguiu mudar isso. O independente tem muito essa coisa das pessoas amarem muito que fazem, e isso foi muito importante para o cenário se desenvolver”.

O primeiro disco foi gravado no estúdio Inca, em Cuiabá, com apoio do Espaço Cubo, centro-nervoso e principal pólo de produção do circuito Fora do Eixo. Encartado na edição de agosto da revista OutraCoisa, o álbum contém 14 canções compostas nos últimos três anos.

“Esse foi o primeiro trabalho que a gente gravou dentro de estúdio, aquela coisa profissional. Foi um disco que a gente já tinha gravado em casa, o que acabou sendo uma pré-produção. Eram canções que a gente já estava muito familiarizado, gravamos em 10 dias tudo. Foi muito rápido”, revela o vocalista.

“Vanguart”, o disco, transita por três línguas diferentes num folk-rock atipicamente brasileiro. Originalmente, Hélio só compunha em inglês, mas aderiu à língua pátria no single “Semáforo” (2006), balada niilista (“Todos meus amigos querem morrer”, diz o refrão) que até hoje é a música mais conhecida da banda e – pode-se argumentar – uma das grandes canções do rock nacional nesta década.

O disco volta às bancas em dezembro e deve ser relançado durante 2008, mas Hélio, como outros dessa geração, não tem certeza sobre qual modelo de distribuição escolher:

“As coisas estão mudando muito rápido, então tudo isso vai acabar se renovando. O legal é ficar buscando formas novas, tipo o que o Radiohead fez agora, sabe? Buscar formas novas de se distribuir música, seja botando o disco inteiro para download de graça, seja vendendo em banca, ou colocando para pagar o quanto você quiser. Esse modelo é legal porque a gente sabe que quem pode pagar, acaba pagando, sabe? O fã vai pagar o quanto ele acha que deve ser pago. Isso é justo para caramba”, comenta sobre a decisão da banda britânica em deixar para o consumidor a responsabilidade de por preço no seu último disco, “In Rainbows”.

Além do relançamento do disco, em 2008 o Vanguart deve gravar novos clipes e continuar a incansável turnê pelo Brasil. Estourar? Talvez isso realmente não importe. Como diz a letra de “Para abrir os olhos”, última faixa do disco, “o que importa é o que te faz abrir os olhos de manhã”. E no caso do Vanguart isso parece ser apenas a vontade de continuar fazendo música.

por Livio Vilela


Respostas

  1. quero comprar o cd, como faço…..moro no interior do parana….cambara

  2. Muito boa matéria, acho que merece apenas um adendo: Vanguart é a banda brasileira de 2007 e dos próximos anos também! Vida nova para o rock brasileiro, vida longa ao Vanguart!

  3. [...] 10) Hot Chip @ TIM Festival – Marina da Glória Das várias mancadas (e não foram poucas) que a produção do TIMFest cometeu na edição 2007, a maior (para mim) com certeza foi ter escalado o Hot Chip para tocar antes do Arctic Monkeys. A maior tenda da Marina da Glória abarrotada de gente não foi o lugar perfeito para eletrônica pesada, psicodélica e extremamente dançande do Hot Chip. As fãs dos macacos faziam cara de “oi?” com as longas jams de teclado, sinterizadores, baixo e uma eventual guitarra, provavelmente se perguntando quem era o nerd enrolado num saco plástico que comandava aquilo tudo. Eu até tentei dançar. Não deu. Mas pelo que se ouviu, os ingleses estão perto de cometer uma obra-prima em seu terceiro disco, “Made In The Dark” (já vazado, mas com uma voz irritante por cima). [resenha completa] 09) Vanguart @ Cinematéqué Jam Club Não vou negar que meu primeiro show do Vanguart foi bem decepcionante. Atraso de quase 2 horas, o som nefasto do Teatro Odisséia (e o chopp quente e caro do local) e a banda parecendo não estar nos seus melhores dias fizeram que eu quase mudasse minha opinião sobre a banda. Por sorte, uma nova chance apareceu, na charmosa e aconchegante Cinematéqué, com um som bem mais audível e ainda com abertura luxuosa do duo de folk-rock chileno Perrosky. E o Vanguart não decepcionou, mesmo com um Hélio Flanders com voz arranhada. O show foi longo e intimista, com banda e público batendo papo. O set resgatou algumas canções dos primeiros EPs, além de belas versões para minhas favortitas (”Para abrir os olhos” e “Antes que eu me esqueça”) e final com duas covers de Beatles. Classe. [matéria com Vanguart] [...]

  4. [...] “In Rainbows”, Radiohead 03) “Boxer”, The National 04) “Vanguart”, Vanguart 05) “Person Pitch”, Panda Bear 06) “The Magic Position”, Patrick Wolf 07) [...]

  5. Posso dizer que me apaixonei pela banda! Fui prestigiá-los no show do SESC Pompéi (onde o Lobão tb marcou sua presença) e seu estilo e energia me contagiaram. Com certeza ganharam mais uma fã. Com uma desenvoltura no palco Hélio mostrou que manda muito bem fazendo perfomances com um dueto flauta-violão. Achei fantástico!! Rock enovador, canções inteligentes, é isto aí Brasil, estes meninos prometem.


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