
O que move um artista?
A pergunta é retórica, a resposta não deve ser proclamada como numa questão exata. Ainda assim, na história da crítica de arte, muitos foram os palpites que tentaram solucionar um mistério tão humano que acaba servindo como definidor de sua condição.
E o que move Fernanda Takai? A vocalista da célebre banda Pato Fu, há mais de 15 anos na estrada, não respondeu formalmente essa questão, mas nos dá pistas para a solução desse enigma em suas escolhas musicais. Logo depois de lançar “Daqui Pro Futuro”, um novo álbum ao lado do marido e guitarrista John Ulhoa, Fernanda embarcou numa missão solo tão discretamente ousada que tomou de assalto os lançamentos de discos no final de 2007.
Sua inspiração, dessa vez explícita, veio na forma de “Onde Brilhem os Olhos Seus”, lançado pela “Do Brasil Discos” e distribuído pela “Tratore”, uma homenagem a Nara Leão, musa da Bossa Nova. Com 13 faixas, o disco conta com o melhor da produção de Nara, somado aos arranjos modernos feitos sob a direção artística de Nelson Motta e da produção de John Ulhoa.
Abrindo com “Diz Que Fui Por Aí”, o disco se aproveita da sonoridade melodiosa de Fernanda, sobressaindo sua voz acima dos instrumentos, abusando do dedilhar de guitarras e adicionando um discreto compasso de bateria que a acompanha pelos versos cantando a solidão consentida de alguém que escolheu um novo rumo sem consultar ninguém.
O clima muda logo na segunda faixa com “Lindonéia”, letra de Caetano Veloso, que ganha uma atmosfera mais Bossa e mais experimental, marcando bem a vontade do Pato Fu de ousar em cima do já conhecido e acertando em cheio ao apostar no potencial para dramaticidade de Fernanda que audivelmente se emociona ao cantar chegando a um incrível e inesperado crescendo no meio da canção.
A terceira faixa abre espaço para a letra de Chico Buarque, “Com Açúcar, com Afeto” é, como toda letra do Chico, sagaz. O samba ganha toques eletrônicos que não soam como um modismo, mas preenchem bem os espaços em branco em que os versos debatem sobre a complicada dinâmica de uma relação a dois, aturdida pelos insucessos, mas impossibilitada de ser definitivamente desmanchada.
Em “Luz Negra”, Fernanda reproduz o eu-lírico masculino que lamenta a solidão, temática retumbante em todo o disco, enquanto espera seu fim iminente. Clima bem diferente de “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, composição do Rei e do Tremendão que ficou famosa na voz de Caetano Veloso e que agora tem uma nova versão muito menos pesada do que suas anteriores. Dando leveza ao disco, Fernanda acelerou as batidas da música transformando-a num respiro de alívio com direito a xilofones e a sempre bem vinda bateria eletrônica.
Em “Insentatez”, temos um dos pontos chaves do disco. Auxiliada na guitarra pelo lendário Roberto Menescal, Fernanda Takai canta Vinícius de Moraes consciente de que “Quem semeia vento, diz a razão / Colhe sempre tempestade”, chegando a encerrar a canção com elementos de blues desenganado. Emendando com “Odeon”, metalingüística por si só, o clima de boteco permanece abrandado pela voz delicada e brincalhona da vocalista, que canta saudosa os tempos de criança, época de outros sons, cada vez mais esquecidos.
A trinca “Seja o Meu Céu”, “Estrada do Sol” e “Trevo de Quatro Folhas”, aproveita o melhor da Bossa Nova clássica somando-a ao experimentalismo brando que marcou sempre os trabalhos do Pato Fu. Com pitadas mais carregadas de música eletrônica, ritmo lúdico acelerado, as três formam a essência do delicioso mote que dá nome ao álbum: “Onde Brilhem os Olhos Seus”. Misturando elementos característicos do folclore nacional o trio une música, religião e peregrinação quase sebastianista, na busca de um rumo celeste e incerto.
Nitidamente o ponto mais alto do disco, “Descansa coração” não é para os fracos. A versão de Nelson Motta cantada por Fernanda Takai emociona pela simplicidade de seus versos e pela confusão sincera enunciada de forma tão angustiante sem ser nem um pouco forçada. Chega a ser uma canção positivamente claustrofóbica, que oprime incertezas num único espaço, para aliviar o peso que sobrecarrega o coração de quem canta e de quem escuta.
Invocando Ary Barroso ao som quase a capela, “Canta, Maria”, Takai se supera dentro de um trabalho já exemplar. Como se fizesse referência a si mesma, a voz enuncia como se sussurrasse dentro de sua cabeça: “Canta, Maria / A melodia singela / Canta que a vida é um dia / Que a vida é bela”.
Talvez a mais memorável canção no repertório de clássicos cantados dos 8 aos 80 anos, “Ta-hi” ganha uma ambientação que faz jus a sua letra e por 53 segundos fecha o conjunto de faixas de forma magistral, apelando ao ouvinte que reconheça a sinceridade de cada uma das canções ali gravadas, rendendo-se a composição e entregando-lhe o coração que lhe é de direito.
Movida por uma liberdade que já foi conquistada, mas que precisa ser constantemente reafirmada, Fernanda Takai gravou “Onde Brilhem os Olhos Seus” buscando reencontros, seja com Nara Leão, seja com as palavras daqueles que fizeram a história da MPB, ou mesmo com seu próprio toque pessoal, tão sutil e tão fantasticamente marcante.
por Denis Pacheco