Publicado por: Revista YMSK | 20 Fevereiro 08

Juno – A trilha sonora

Juno

 

          Se você ainda não assistiu irá assistir, talvez esteja indo agora mesmo, talvez tenha ficado em casa pensando em não embarcar na mais nova sensação do cinema indie que dispensa comparações. Caso esteja receoso, reprima sua anti-sociabilidade e assista “Juno”, obra-prima dirigida por Jason Reitman, do igualmente excelente “Obrigado por Fumar”.

A receita de Reitman em seus dois filmes de já alardeado sucesso é simples: pegue um bom ator/atriz coloque-o numa situação arriscada e faça-o se livrar dela com as melhores tiradas possíveis.

Entretanto, ao contrário de um lobista que vive às custas da indústria de cigarros, Juno conta uma história que envolve menos politicagem, mas a mesma quantidade de moralismos (difícil não carregar essa palavra pejorativamente). Os tais moralismos dessa vez envolvem o aborto, a gravidez na adolescência, mas acima de tudo, o olhar da sociedade diante daqueles que ousam enfrentá-la de braços abertos.

Não é a toa que a trilha sonora de Juno seja categorizada pela crítica como antifolk. Sendo o folk um movimento de canções políticas, o antifolk cartesianamente representa seu inverso. Apesar de mantidos os instrumentos, o violão, a ocasional gaita e a qualidade duvidosa das gravações, o antifolk tem como objetivo ridicularizar o moralismo em todas as suas demonstrações, seja por parte dos temas cantados pelo folk, seja contra os próprios cantores que, muitas vezes, se colocavam acima do bem e do mal dando ao mundo respostas pessoais para problemas que exigiam solução coletiva.

E o que tudo isso tem a ver com Juno? Então vamos a história: Quando descobre que está grávida depois de uma relação sexual inexplicável com seu melhor amigo, a jovem de 16 anos batizada em homenagem a deusa grega Hera (Juno), aprende rapidamente que as decisões que tomaria seriam exclusivamente da sua conta e deveriam ser levadas com uma seriedade incomum a sua faixa etária.

Não abortar, ter o filho e entregá-lo conscientemente para uma família de estranhos não é, de maneira nenhuma, algo trivial, entretanto Juno se mostra incompreensivelmente segura de sua decisão. Assim como ela aos 16 anos já sabia muito bem qual seu tipo de música favorito e qual o estilo que detestava (sua predileção pelo proto-punk dos anos 70 pontualmente evidenciada durante o filme), Juno também parece compreender bem as diferenças entre o que era certo e errado em sua situação. Longe de ser um modelo, Juno acaba se transformando num paradigma acidental que, ao som de Kimya Dawson, dos Moldy Peaches, caminha pelos nove meses de gravidez aprendendo a tirar de letra o medo dos pais, a rejeição do amigo/namorado que não sabe bem seu lugar e a insegurança dos pais de primeira viagem interpretados por Jason Bateman (do excelente “Arrested Development”) e Jennifer Garner (musa de “Alias” e de arrepiar como Vanessa).

Verborrágico como sua protagonista, Juno traz em sua trilha sonora (tocada pela metade durante a projeção) artistas de diferentes períodos, mas que cantam em uníssono as inseguranças de uma sociedade que sempre cai em contradição. Seja com o rock primário de Buddy Holly e Mott the Hoople, o experimentalismo dos Kinks e do Velvet Underground ou a contemporaneidade indie de Cat Power e Belle & Sebastian, a trilha passeia por canções tão deliciosas de se escutar quanto as tiradas humorísticas da própria Juno.

Ainda assim, é na já mencionada Kimya Dawson, sugerida ao diretor pela própria protagonista Ellen Page, que Juno se faz singular. Canções como “Anyone Else But You”, interpretada num dueto final pela própria Ellen e pelo co-protagonista Michael Cera (o pai da criança!), e “Loose Lips” resumem bem a cabeça formada de uma mulher num corpo de 16 anos e com muito a dizer. De perder o fôlego “Loose Lips” canta corações partidos, canta amizades perdidas, fala sobre insegurança, sobre deixar para lá e até sobre a “maldita Guerra e o maldito Bush”… mais antifolk impossível!

Destaque especial para as farpas direcionadas a Sonic Youth que aparecem na trilha interpretando Carpenters, na célebre “Superstar”. Se você não prestou atenção no que Juno falou sobre os roqueiros alternativos, recomendo que assista de novo e dê boas risadas.

Concorrendo a quatro Oscars, Juno já arrebatou muitos corações solitários e promete gerar mais um culto para os devotos do bom cinema internacional.

por Denis Pacheco 


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