Publicado por: Revista YMSK | 20 Fevereiro 08

Spoon

Spoon


“There is no spoon”

            Há pouco menos de 15 anos, no interior do Texas, surgia uma banda que sem querer rumava para a grandeza. Não exatamente a grandeza mais almejada na indústria da música, mas aquela que é atingida apenas pelos que têm talento incontestável. Talento nem sempre é fator que lhes concede fama e fortuna, mas que certamente lhes garante um lugar invejável no hall de excelentes bandas de rock ainda ativas.

Eleito por essa revista o segundo melhor lançamento do ano passado, seu sexto disco “Ga Ga Ga Ga Ga” foi, para dizer um mínimo, uma excelente resposta a falta de criatividade que o rock mainstream andou exibindo nos últimos anos. Com os pés no art-rock sem afundar-se no intelectualismo, o Spoon consegue a cada lançamento inovar faixa a faixa tanto em composição e melodia, quanto em letra e temáticas. Flertando com a contemporaneidade, suas músicas falam sobre a confusão de se viver numa era em que tantas vozes acabam por nos ensurdecer ao invés de nos esclarecer. Com um pé no dadaísmo, o Spoon brinca com os títulos de suas músicas, subverte o idioma que lhes apadrinha e cresce degrau por degrau ao tomar a crítica internacional de supetão, enquanto galga seu caminho até a tão almejada popularidade.

Originada no final de 1993 pelo cantor/guitarrista Britt Daniel e pelo baterista Jim Eno, a banda teve como integrantes originais Greg Wilson também na guitarra e Andy McGuire no baixo. O nome “Spoon” foi escolhido como uma homenagem à banda alemã e vanguardista Can cujo hit intitulado “Spoon” serviu como tema musical para o filme “Das Messer” de 1970, uma das inspirações do grupo.

O debut oficial do Spoon veio com o lançamento do vinil em maio de 1994 do chamado “The Nefarious EP”. Em 1995, a banda assinou contrato com a Matador Records e em 1996 lançou seu primeiro álbum “Telephono”, mais experimental do que o pop se permitira ser no auge da era Grunge dos anos 90. Ainda assim, foi em 1997 com o EP “Soft Effects” que o Spoon realmente foi notado pela cena musical como algo novo num mar de sons cada vez mais genéricos.

Assinando com a Elektra Records em 1998, a banda enfrentou seu primeiro problema quando, quatro meses depois de fecharem o acordo e terem lançado seu segundo álbum, “A Series of Sneaks”, a gravadora decidiu acabar com a parceria forçando-os a lançar um inusitado e provocativo single contendo “duas músicas” intitulado “The Agony of Laffitte”, que se referia a própria Elektra e seu agenciador Ron Laffitte.

Não demorou muito até que eles assinassem um novo contrato com a Merge Records que lançou imediatamente o novo EP “Love Ways” no ano 2000. “Girls Can Tell”, terceiro disco da banda, foi lançado em 2001 e vendeu mais cópias do que seus dois discos anteriores juntos. “Kill the Moonlight”, quarto álbum, saiu logo em 2002 e cumpriu o mesmo feito de “Girls Can Tell” vendendo mais do que todos os anteriores combinados o que lhes garantiu a autonomia musical para compor um de seus mais memoráveis trabalhos, “Gimme Fiction”, lançado também pela Merge em 2005, ficando em 44º lugar nas paradas da Billboard e vendendo mais de 160.000 cópias.

Com um foco distante das velhas estratégias radiofônicas, o Spoon passou a investir em aparições televisivas e em trilhas sonoras. Para todos os que assistiram o excelente (talvez o único bom filme de Will Ferrel) “Mais Estranho que a Ficção”, Spoon foi a banda responsável por quase todas as incursões musicais da trilha sonora. Brian Reitzell, encarregado da direção musical do filme, colaborava diretamente com Britt Daniel compondo e adaptando diversas canções da banda desde “Kill the Moonlight” até “Gimme Fiction”.

Seu já mencionado e mais recente álbum, “Ga Ga Ga Ga Ga” foi lançado em julho de 2007 e debutou em décimo lugar nas paradas da Billboard, o que chamou a atenção do público para seus trabalhos anteriores e provocou uma reação nas escolhas de trilha sonora de diversas séries de ficção conhecidas também por sua boa seleção musical.

O famoso hit “The Way We Get By” de “Kill the Moonlight” foi verdadeiramente popularizado quando integrou a trilha sonora de The O.C. enquanto novas séries passaram a abrir espaço para as canções da discografia do Spoon, tais como a marcante “I Turn My Camera On”, do “Gimme Fiction” tocada em Veronica Mars (série na qual o próprio Britt Daniels participou cantando num videokê). Na temporada passada, “Don’t Make Me a Target” e “Don’t You Evah” abriram episódios da nova série da Warner, Chuck, cuja responsável pela trilha é a mesma de The O.C., Alexandra Patsavas, indicada ao Grammy de 2007 para o prêmio de “Melhor Compilação de Trilha Sonora para filme”.

Comendo pelas beiradas, o Spoon atinge discretamente o status de presença marcante na indústria musical, aliando-se a fontes de inspiração como o cinema e a televisão para se lançar na correnteza principal que conduz as paradas internacionais, sem que para isso, se desvirtue do experimentalismo original e da sonoridade única que lhe são tão característicos.

por Denis Pacheco


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