Publicado por: Revista YMSK | 21 Fevereiro 08

Estilhaçando Dylan

I’m Not There

 

           Se a Cultura Pop é a grande religião pagã do pós-guerra, Bob Dylan certamente é um dos seus apóstolos. Em quase cinqüenta anos de carreira, Dylan foi mitificado de diversas maneiras. Todas elas cabem em “I’m Not There”, cine-biografia escrita e dirigida por Todd Haynes (“Velvet Goldmine”, “Longe do Paraíso”) e que deve chegar aos cinemas brasileiros até o final do primeiro semestre de 2008.

Mas se engana quem pensa que “I’m Not There” é uma versão romantizada de “No Direction Home”, o documentário definitivo sobre Dylan dirigido por Martin Scorcese. Todd Haynes sabia da cilada em que poderia se meter ao tentar transpor tanta história para as telas e por isso decidiu ousar, estilhaçando Dylan em 6 personas distintas (nenhuma delas é chamada de “Bob”, nem de “Dylan”, muito menos de “Robert Allen Zimmerman”) interpretadas por seis atores diferentes.

Mesmo com um roteiro um pouco confuso, “I’m Not There” compensa com uma boa montagem e ótimas atuações de Cate Blanchett, Christian Bale e do recém-falecido Heath Ledger – além da trilha sonora, obviamente. O filme concentra sua ação nos anos 60, década em que Dylan lançou seus melhores trabalhos, mas há passagens que se relacionam tanto com sua infância e suas raízes, quanto aos anos 70 (Heath) com sua maturidade (parte do personagem de Bale e Richard Geere). Vemos assim o poeta da nova juventude que se viu nas garras do “sistema”, o trovador folk que chocou seu público ao adotar a guitarra, e escandalizou uma sociedade com sua capacidade de autodestruição, o ídolo que viu os sonhos de sua geração ruírem antes de se tornarem realidade, a estrela que viu sua vida rachar ao meio frente ao mundo e tornar tudo isso em música…

Nessa desconstrução mito, Todd Haynes consegue até ir um pouco além, ou pelo menos apontar alguns caminhos. “I’m Not There” não fala só de Dylan, fala da Cultura Pop e da maneira como ela constrói sua própria mitologia. O filme entende que em se tratando de um diamante de várias faces como Dylan, cada uma delas importa e importam, sobretudo, os talhos do ourives que transformaram a gema bruta na pedra brilhante para o encantamento da massa. Veja só o caso de Dylan: quantas histórias existem sobre ele que não passam de narrativas construídas, talvez bastante distantes da realidade? Quantos de nós já atribuímos certos significados a sua música que passam longe das suas reais intenções?

Aqui, o filme se relaciona com “Últimos Dias”, outra cine-biografia pouco convencional, na qual Gus Van Sant nos faz espectadores dos momentos que antecederam o suicídio de Kurt Cobain. Van Sant coloca sua câmera (e com isso seu público) distante do personagem, como se pudesse olhar Cobain isento de significações anteriores àquilo, para que assim possamos repensar essas mesmas significações. Já Haynes vai na direção contrária, colocando na tela justamente essas pré-concepções sobre Dylan, para então especular o quanto de verdade e o quanto de lenda há num ídolo pop.

“I’m Not There” não chega a ser definitivo nem quanto a Dylan, nem quanto a cultura pop. Mas tem grandes méritos em ambos os campos, especialmente no segundo. É quando mira nos grandes pedestais, nos fazendo investigar as maneiras e os porquês da construção de um mito da cultura pop como Bob Dylan, mesmo que através dela, – uma metalinguagem óbvia e eficiente – é que Todd Haynes faz o grande cinema prometido desde “Velvet Goldmine”.

por Livio Vilela


Respostas

  1. [...] Melhor Atriz Coadjuvante Quem ganha e merece ganhar: Cate Blanchett. Ainda não vai ser dessa vez que ela leva melhor atriz, e ela merece mais por interpretar um Dylan melhor do que 5 marmanjos no filme que eu resenhei aqui. [...]


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