Publicado por: Revista YMSK | 28 Abril 08

Reações Psicóticas – Lester Bangs

“Of course I’m home. I’m always home. I’m uncool”

              Quando William Miller pergunta para Lester Bangs se ele está em casa, a resposta é imediata: eu estou sempre em casa, eu sou “uncool”. Mesmo que você não tenha visto essa célebre cena da obra-prima de Cameron Crowe (Quase Famosos), e não saiba quem de fato foi o tal do Lester Bangs, minha recomendação é assaz e direta: leia “Reações Psicóticas”.

O livro de 1988, uma compilação de artigos célebres de Lester, reúne sem querer dados sobre a personalidade explosiva e o temperamento arredio desse que foi um dos pilares da crítica musical americana. Trabalhando para diversas publicações, entre elas The Village Voice, Penthouse, Playboy, New Musical Express, Creem e a lendária Rolling Stone (da qual foi sumariamente demitido), Lester Bangs tornou-se figura ímpar na construção da crítica musical internacional ao aliar diretamente seu ímpeto jornalistico ao faro mordaz bem peculiar. Compilado pelo amigo e ex-editor Greil Marcus, “Reações Psicóticas” é ao mesmo tempo uma homenagem e um guia para todos aqueles que ousam se aventurar pelos sinuosos caminhos da crítica.

Com artigos, entrevistas e trechos que podiam muito bem pertencer ao diário pessoal do próprio Bangs, “Reações Psicóticas” ilustra claramente a imagem não apenas “uncool”, mas “anti-cool” que ele se esforçava em reproduzir. Se os jornalistas têm como meta a chamada neutralidade, o distanciamento da notícia, Lester (enquanto crítico) possuía como objetivo principal fazer de si um pólo distante do famoso estereotipo do rockstar – seu objeto de trabalho e estudo – ao mesmo tempo mergulhando de corpo e alma na época em que vivia. Sem entrar nos méritos de qual estilo jornalístico Bangs adotara para si, o que sabemos é que sua postura essencial consistia em servir – ele próprio – de contraponto ao inebriante universo da música pop/rock.

Envolvido diretamente com a cena, Bangs procurava projetar sobre si uma aura radicalmente distinta daqueles com quem tinha contato. Seja na entrevista com os precursores da música eletrônica do Kraftwerk, seja no desconcertante encontro (ou aula de farmacologia) com seu heroí e anti-herói Lou Reed, Lester Bangs atacava com acidez, sarcasmo e acima de tudo desconfiança fazendo do papel de entrevistador, um verdadeiro mártir diante da hipocrisia roqueira.

Oscilando entre artigos mais bélicos, e verborragias mais introspectivas, o livro contém flagrantes de uma personalidade “outsider” que poderia ou não ser feliz em suas gritantes diferenças. Notadamente acima da média, Lester seduzia seu leitor em textos nos quais mostrava e escondia suas paixões. A análise de “Astral Weeks” e da performance de Iggy Pop, são dois dos momentos mais reveladores em que o crítico se despe de sua distinta arrogância, para vestir a camisa do artista e obra que está descrevendo, configurando-se, momentaneamente, como parte da massa de admiradores.

Entre a crítica selvagem e sem direito de resposta (vide o texto sobre Jethro Tull e o Vietnã – um dos mais hilários do livro), e os momentos introspectivos e solitários em que se coloca como um acidental porta-voz de sua geração (especificamente no emocionante artigo sobre a morte de John Lennon), Bangs se fez presente – sem jamais declarar essa intenção – no contraditório cenário do rock dos finais de anos 60 até o começo dos anos 80.

Vítima dos mesmos vícios das estrelas que adorava atacar, Lester Bangs faleceu após uma overdose de drogas em 30 de abril de 1982, mas seu estilo único permanece vivo em imitadores que tentam atingir seu quase inalcançável nível de prolixismo declaradamente “uncool”.

por Denis Pacheco


Respostas

  1. Quando tu disse que iria resenhar o Lester Bangs eu te avisei que eu vivia uma relação de amor (pouco) e ódio (enorme).
    Pois digamos que depois de ler teu texto vou ter que reler o Reações. Com a tua crítica eu simpatizei com o rapaz… algo não está certo rs!

  2. o texto do astral weeks e aquele do folk vietnamita (?) são sensacionais.

    mas daquela colação lançada pela conrad, nada bate o o a última transmissão do greil marcus. tem um texto sobre o início da rough trade e outro sobre o new order que são como poesia pra mim.

  3. oi li seu texto, e vou ter que defender lester de uma informação que faz dele mais um daqueles que morreram de overdose loucos por aí. não foi bem assim, lester faleceu quando estava tentando largar a bebida e se curando do alcolismo, em decorrência de um superdose de remédios. ironia a parte, ele morreu quando estava tentando largar o vício e não em decorrência de noites regadas a álcool e drogas. afinal ele sempre foi um uncool.


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias