
Oito de março, dia internacional da mulher e aniversário da Hebe Camargo. Se a apresentadora que inaugurou a televisão brasileira continua na telinha, pode ter certeza que não é graças a audiência de um dos maiores expoentes do rock. No universo paralelo do rock n’ roll há poucos exemplares femininos que se encontram perdidos em um mar de testosterona! Em uma competição feroz, o número de ganhadoras que constroem uma trajetória respeitada por todos os sexos é de frustrar as expectativas de qualquer partido feminista.
Janet Susan Balion nascida no sul de Londres em 1957, passou a adolescência mais preocupada com os excessos alcoólicos do pai, do que com acompanhar outros ícones femininos da tv, como Mary Tyler Moore. Atingindo o ápice da rebeldia, a menina começou a ouvir o que havia de melhor e digamos, menos comportado na época. Entre discos de Bowie, The Stooges, Sex Pistols e T Rex, e assim foi-se criando a imagem de Siouxsie Sioux, uma cantora que conseguiria mudar padrões, mostrando as mulheres como figuras fortes e dominantes, apagando o clichê das donzelas indefesas e dominadas!
Uma das melhores descrições já feitas sobre Siouxsie está em um artigo sobre a importância das mulheres para o mundo da música escrito pelo crítico inglês Simon Reynolds se refere a ela como uma “Rainha Gélida”. Em 1976, essa frigidez não condizia com a imagem de outras artistas que já tinham prestígio artístico como no caso de uma jovem com a voz suave e o talento musical herdado pelo pai, ganhadora do Grammy de artista revelação. No entanto a figura de Natalie Cole em nada remetia a Siouxsie que dava seus primeiros passos musicais junto de nomes como Sid Vicious e Billy Idol. Ali começava a trajetória da mulher que influenciaria nomes que mais tarde manteriam a fama de que garotas também gostam de rock n’ roll, como Shirley Manson e Courtney Love.
Nem a falta de culhões fez com que Siouxsie fosse rebaixada ao segundo escalão da cena musical londrina. O primeiro disco dos Banshees foi lançado em 1978 e logo despertou o interesse. A música que acrescentava ao punk uma grandiosidade quase orquestral, aliada a presença marcante da vocalista, logo transformou os membros da banda em ícones do que era chamado de estilo gótico. Junto de seus companheiros, Siouxsie conseguia desafiar até mesmo os artistas com quem convivia intimamente. Outro nome do gothic style era o The Cure, que apresentava o mesmo tipo de cabelo e maquiagem da cantora. No entanto, Robert Smith parecia lidar melhor com seu lado feminino do que a própria. Enquanto Smith cantava canções doces como Love Song, Just like Heaven e The Lovecats, os Banshees pintavam os sentimentos nobres de uma geração com imagens fortes, quase míticas, repletas de cores escuras e tétricas em canções da estirpe de Swimming Horses, Slowdive e Candyman.
Sioux chocava os mais puritanos e despertava pensamentos libidinosos naqueles que apreciavam seu estilo bondage, diretamente ligado ao sadomasoquismo e ao fetiche em que a principal fonte de prazer estava em amarrar e imobilizar o parceiro. A ex- Janet Susan conseguiu esse efeito, principalmente através de sua arte. A carreira dos Banshees durou pelo menos 20 anos. Talvez o divórcio do marido e parceiro artístico Budgie tenha enterrado a banda a sete palmos para sempre. Mas em duas décadas eles criaram pérolas como Hong Kong Garden, The Killing Jar e Cities of Dust, reunindo o que poderia haver de melhor no rock: criatividade e polêmica.
Em 2007, Siuxsie lançou seu primeiro disco solo, Mantaray, mostrando uma artista que amadureceu sem perder sua personalidade tenaz. Ela ainda usa roupas exóticas, maquiagem exagerada e faz comentários desabonadores sobre quem não lhe agrada, mas o olhar intimidador foi suavizado. Talvez Siouxsie esteja mais próxima da força de sua alma feminina ou como ela canta em Into a swan: “Eu sinto uma força que eu nunca senti antes, eu não quero mais lutar contra ela. Sentimentos tão fortes não podem ser ignorados, eu explodo, estou transformada…”.
por Lidiana de Moraes